Domingo, 12 de Fevereiro

01/09/2014 00:00 - Copyleft

Jihadistas na Casa Branca e os gasodutos da Eurásia

Um dos objetivos da atual ofensiva lançada contra a Rússia pelos EUA é forçar a Gazprom Germania a suspender cerca de 25 projetos que desenvolve na Europa.


Nazanín Armanian*

Em 1985, o mulá Omar e sua equipe Jihadista-Talibã-Al Qaedista foram convidados por Ronald Reagan à Casa Branca para tomar chá e negociar a construção do gaseoduto trans-afegão (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia, “Tapi”) sobre as ruínas do espaço soviético.
 
Depois do 11 de setembro, e para não ferir sentimentos, esses encontros com a ultradireita islâmica, financiada pela CIA, transladaram-se às bases do Pentágono no Golfo Pérsico: dali é de onde saem os “rebeldes” afegãos, chechenos, líbios, iemenitas, sírios, iraquianos, chineses, entre outros, com a missão de cortar cabeças e provocar o chamado "caos criativo" - ou o que dá no mesmo, guerras – nos países rivais e/ou produtores de hidrocarboneto.
 
O atual "Grande Jogo" entre as grandes e médias potências do mundo, que na Eurásia faz agitar a bandeira negra jihadista, continua girando em torno dos gasodutos. Nesse jogo, a ofensiva do intrépido Obama contra a China – sua principal obsessão – passa pelo controle do gás da Rússia e do Irã, principais reservas mundiais do "ouro azul", com a finalidade de impedir a chegada de energia às veias da economia do gigante asiático.
 
A recessão econômica dos principais clientes do gás russo, a falta de segurança provocada pelas guerras e a forte entrada dos EUA como produtor de gás de xisto – e o uso da técnica de fraturação hidráulica e perfuração horizontal que tornaram possível a exploração do conhecido como “tight gas” (o gás das areias compactas), do “shale gas” (o gás de formações argilosas) e o petróleo de xisto -, não somente mudaram o lugar dos vendedores e compradores de energia, como transformaram em obsoletas as instalações dos tradicionais produtores.
 
Gazprom, Total e Statoil, por exemplo, suspenderam o grande projeto iniciado em 2007 na reserva de gás de Shtokman, no Mar de Barents: o cliente interessado, os EUA, já não precisavam. Que este país deixasse de comprar 40% do gás do Catar fez com que o sultanato buscasse novos clientes, ainda que, por eles, tivesse que contratar os matadores do Estado Islâmico para arrasar a Síria e o Iraque, facilitando o caminho do gasoduto árabe.
 
Excessivo “fracking” e muito excedente de gás fizeram baixar os preços e provocaram a quebra de muitas pequenas empresas, razão pela qual as companhias começaram a exportá-lo, sem que o Congresso levantasse a proibição que pesa sobre as exportações de hidrocarboneto desde 1975: o primeiro barco zarpou rumo à Coreia do Sul.
 
A suposta "autossuficiência energética" dos EUA pode ter consequências inesperadas: seus antigos provedores deixarão de armazenar dólares, enquanto a Rússia pedirá rublo ou yuan em troca de seus produtos, introduzindo, no sistema monetário mundial, os termos "petrorublo" e "petroyuan", com tudo o que isso pode acarretar.
 
Rússia: "areia movediça"
Um dos objetivos da atual ofensiva militar e econômica lançada contra a Rússia pelos EUA é forçar a Gazprom Germania, empresa estatal do gás russo com sede em Berlim, a suspender cerca de 25 projetos que estava desenvolvendo na Europa, e que ia transformar a maior companhia estatal de gás natural do mundo. A resposta de Vladimir Putin foi assinar com a China um mega acordo para administrar o gás a partir de 2018 durante as próximas três décadas, fortalecendo a Organização para a Cooperação de Xangai e também os Brics, e de quebra aumentar a entrada do capital chinês na economia russa.
 
A guerra do gás também explica parte das razões do respaldo do Kremlin a Bashar Al Assad. Enquanto ele estiver no poder, não permitirá a construção do gasoduto árabe, nem catariano, e os sauditas permitirão que o Irã inicie o gasoduto Irã-Iraque-Síria, formalizado em 2011, e que seria inaugurado em 2016. Os EUA, que buscam o declínio político de Moscou e o desmantelamento da Federação Russa, conseguiu, com as sanções, aumentar o preço do gás – que pode chegar até 50% - e assim lhe compensar pela perda nas vendas devido às sanções!
 




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