Sábado, 25 de Junho

05/05/2015 - Copyleft

Vencer a batalha das ideias

Os governos de esquerda têm que enfrentar o elemento de maior força do neoliberalismo: sua força ideológica do 'modo de vida norte-americano.'

por Emir Sader em 05/05/2015 às 06:14



Emir Sader

“E quando, finalmente, a esquerda chegou ao governo, tinha perdido a batalha das ideias.”A afirmação de Perry Anderson sintetiza o maior desafio para os que queremos superar e substituir o neoliberalismo em todas suas dimensões.
 


Significa que o neoliberalismo fracassou como proposta econômica, o que abre a possibilidade para que a esquerda apareça como alternativa de governo. Quando chega ao governo, tem que enfrentar toda a herança maldita do neoliberalismo: recesso, enfraquecimento do Estado, desindustrialização, fragmentação social, entre outras coisas.
 


Mas, além disso, tem que enfrentar o elemento de maior força do neoliberalismo, a nível de cada pais, mas também a nível internacional: sua força ideológica, a força do “modo de vida norte-americano”, que impõe sua hegemonia de forma quase inquestionada em escala global.
 


O estilo de consumo shopping center se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. É uma espécie de ponta de lança do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra. Por isso o shopping center é o exemplo mais claro do que se convencionou chamar de “não lugares”.
 


O shopping costuma não ter nem janela, nem relógio. Entrar em um desses espaços é se desvincular das condições de vida nas cidades como efetivamente existem, para se articular com a rede de consumo globalizada, mediante às marcas e seu estilo de consumo. Com o conjunto de “vantagens” que traz o shopping center -  proteção do mal tempo, do roubo, com lugar para estacionar, com grande quantidade de cinemas, de lugares para comer, além da diversidade de marcas, todas globalizadas – representa um instrumento poderoso de formas de vida, de sociabilidade, construídas em torno do consumo e dos consumidores.
 


O shopping center é a utopia neoliberal e expressa, da forma mais acabada – junto com a publicidade, as marcas, a televisão e o cinema norte-americanos, entre outros instrumentos – a hegemonia do modo de vida norteamericano. Lugar que ocupa praticamente sem questionamentos, salvo resistências do islamismo ou dos evangélicos.

 

A luta antineoliberal conseguiu impor consensos no plano econômico contra a centralidade do mercado, a favor da prioridade das políticas sociais, por exemplo. Mas não gerou ainda valores, formas de sociabilidade, alternativas ao neoliberalismo e a seu mundo de valores mercantilizados. É certo que há mecanismos monstruosos de promoção dos valores neoliberais, mas também é certo que não temos valores alternativos – solidários, humanistas – que apareçam como alternativas.
 


As politicas sociais dos governos pós-neoliberais tem um caráter solidário e humanista, mas não fomos capazes de traduzi-las em formas de sociabilidade, em valores, alternativos ao egoísmo consumista do neoliberalismo.

 

 

Não se pode simplesmente incorporar propostas anti-consumistas, em sociedade em que o acesso ao consumo é uma conquista para a grande maioria da população. Acesso que traz, junto, as vantagens do consumo e, por extensão, promove o mundo do consumo – incluído o shopping center – como um objetivo de vida. Assim, não se trata de uma batalha simples. Mas é indispensável para a construção de um mundo solidário e humanista.

 

Sem a critica do egoísmo consumista dominante, da falta de solidariedade – especialmente com os mais frágeis -, nao conserguiremos avançar contra a forte hegemonia ideológica do neoliberalismo e ganhar a decisiva batalha das ideias, decisiva nos enfrentamentos centrais do mundo de hoje.
 


 




Tags: Política





Hélio Trindade - 15/05/2015
1 - Temos que lutar para implantar o capitalismo no Brasil.

2- Muito pouco do comércio do Brasil é feito em Shopping Centers.

3- Os evangélicos, em sua maioria, apóiam as pessoas a "prosperarem" com a graça de Deus. Estimulam as pessoas a enriquecerem e não cultivam os valores da solidariedade e do humanismo.

4- As pessoas sabem que existem os valores de solidariedade e do humanismo, porém não surgiu nenhum sistema baseado nesses princípios que pague as contas no fim do mês, coloque um prato de comida na mesa e faça um país prosperar. A China, a Rússia e Cuba sabem muito bem sobre isso.



Amauri Spadari - 10/05/2015
É INACEITÁVEL QUE EM PLENO SECULO 21, O INDIVIDUO QUE QUEIRA DEIXAR PARA TAAZ A PODRIDÃO DA CIDADE, DA EXPLORAÇÃO, DO ROUBO, DA OPRESSÃO, E QUEIRA IR PARA O CAMPO CULTIVAR A SUA COMIDA, NÃO TENHA ESTE DIREITO.

NÃO TEM O DIREITO PORQUE AS TERRAS SUPERVALORIZADAS, GRILADAS PELAS ELITES CAPITALISTAS QUE EMPURRARAM MILHÕES DE AGRICULTORES FAMILIARES PARA OS BOLSÕES DE MISÉRIA NAS PERIFERIAS URBANAS.

O DIREITO A TERRA, DEVERIA DE SER SAGRADA, 5 A 10 ALQUEIRES, E NUNCA ACIMA DE 50 ALQUEIRES, SEJA PARA QUEM FOR.

MAS O BRASIL SEMPRE FOI GOVERNADO POR E PARA UMA ELITE CAPITALISTA, GOLPISTA, CORPORATIVA DE SEUS SÓCIOS SECRETOS.

E OS GOVERNOS DOS ÚLTIMOS ANOS DITOS DE ESQUERDA, DERAM CONTINUIDADE A ESSE PROCESSO EXCLUDENTE.

É TRISTE VER UMA DITA ESQUERDA A MAIS DE DOZE ANOS SER O "GERENTE" E "PRESO DE CONFIANÇA" DO SISTEMA CAPITALISTA ELITISTA, ESCRAVISTA BRASILEIRO.


arquimedes andrade - 09/05/2015
Não conseguimos nos 12 anos de Lula e Dilma mudar o padrão de consumo. Coisa simples como criar uma reforça agrária com agrovilas, com educação, saúde, sistema de lazer, acesso à internet. Ocupar os vastos campos para dar mais qualidade de vida. Fazer 100% de saneamento saneamento básico no Brasil; acesso universalizado à educação e à saúde, de qualidade e gratuito. Avançamos em relação ao período de FHC, acabou a fome o miseré. Melhorou o acesso dos mais pobres aos bens de consumo e bens públicos. A merda toda foi essa corrupção envolvendo alguns membros do partido e de sua base aliada no parlamento. Isso quebrou a nossa coluna para avançar na luta contra o neoliberalismo. Lula reconheceu que o PT ficou muito parecido com os outros partidos nas disputadas eleitorais. Temos que rever os conceitos de partido como ferramenta de luta. Outra coisa falou Eric Hobsbawm: o estado de bem-estar social na UE, América do Norte e outros foi possível pela pressão polarizada da Guerra Fria. Ou capital cedia ou entrava em aguda luta de classes. Faltou o básico também para a disputa de hegemonia: uma imprensa nossa, progressista e em escala nacional.

Estamos aí no meio do fogo cruzado e é nele que vamos criando o caminho novo ao caminhar.


Edwald José Winand - 08/05/2015
No sentido profundo do termo, é preciso por em prática a contracultura, melhor dizendo, as contraculturas, pois nada nos obriga a crer que para constituir alternativa ao fundamentalismo de mercado, demandamos um outro sistema global e homogêneo a favor da socialização. Nem as idéias socialistas são monopólio do pensamento marxista e marxiano, e nem toda expressão socializadora culturalmente ou socialmente precisa ser nomeada ou reconhecida pelo título socialista. Há incontáveis experiências do passado e do presente que expressam claramente o compromisso com a democratização(socialização) profunda, em busca de um ser humano melhor e de uma sociedade melhor. Eu diria poeticamente, homem é índio e índio vive na tribo. Pois as tribos sempre reaparecem, e a diversidade, a pluralidade, é que convém aos humanos.


Luiz Carlos - 06/05/2015
BRILHANTE companheiro Emir, temos que nos unir e mostrar ao mundo a superioridade do MODO DE VIDA CUBANO. Em termos de economia temos também exitosos exemplos como a Venezuela para desmascarar esses insensíveis neoliberais.


Amauri Spadari - 06/05/2015
Emir, não existe esquerda no Brasil, pelo menos não no poder, é tudo chapa branca do capitalismo, basta ver os ABSURDOS como aumento de 87% nas tarifas de energia em menos de 8 meses, contra uma inflação oficial de 6,5%.

E o voto obrigatório em urnas que não lhe dão o direito de escolha, pelo fato de serem...


Matias - 06/05/2015
100% de acordo com voce ( ja tinha comentado isso

em muitos comentario, é o erro no so do PT mas em todos os processos dos governos progressistas do continente). Um consumo popular é necessario num continente tao injusto e precarizado mas deveria estar sempre acompanhado com a perspectiva de uma sociedade mais humana, em oposiçao ao do capitalismo destructor. A esquerda latinoamericana

fez rompimento com " o fardo ideologico da esquerda conservadora" para assumir um socialismo do secolo XXI . Se precisa muito mais

integraçao das raizes indigenas , da urgencia

ecologica para a defesa da vida, da reflexao de uma sociedade nao productivista mais centrada

no estudo dos eco-sistemas para invençoes

ajustadas com o respeito das leis da vida natural.

Quebrar com a nefasta ideologia do individualismo

(nao quer dizer contra a individualidade na dinamica colectiva) é restaurar uma logica dos

valores essenciais: respeito do outro, respeito

proprio com sua palavra e sua opiniao, relegar

o dinheiro no seu papel de uso de intercambio ,etc.

Tudo isso é BATALHA DAS IDEIAS par um mundo

dominado pelas forças de destrucçao total.



Oscar Henrique de Souza e Silva - 05/05/2015
O crítico berlinense Walter Benjamin (1892-1940) já sentira, no século XX, as catástrofes trazidas pelas galerias parisienses (os shopping centers de hoje em dia). Sobreviventes ao século XXI, também sentimos o choque que essas inúmeras Ruas 24 Horas (ponto comercial e turístico situado no centro da cidade de Curitiba) nos dão, todos os dias. Resta-nos livrar nossas almas da arte e cultura capitalistas, como bem quis Benjamin. Abraços do Paraná (Estado em que as professoras e professores estão enlutados devido a intransigência do tucanato).


josé fonseca - 05/05/2015
'Pinta-se o diabo mais feio do que parece'. talvez o ditado queira dizer que vivemos num mundo de ilusões.


Leandro Biciato Oliveira David - 05/05/2015
As propostas políticas para o enfrentamento do neoliberalismo, não estão sendo eficazes pq centralizam as ideias na economia. Acreditava-se que o desenvolvimento da economia traria o progresso humano. A bola de cristal deles estava quebrada. O desenvolvimento da economia não trouxe o progresso humano. Portanto, devemos descentralizar a economia, buscando também na arte, educação, entretenimento, religião (ora, as ideias mais solidárias são encontradas nas religiões), as vias para o progresso humano. Não acho que deve haver brigas de ideias, pelo contrário, deve haver união das ideias. Ou seja, os shopping centers não devem ser "centers" mas "peripherals", pois há suas qualidades.

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