Domingo, 01 de Janeiro
Colunista
13/01/2010 - Copyleft

As grandes crises de 2010: o caso coreano



No artigo da semana passada discutimos os grandes dossiês de política internacional que poderão evoluir em direção a uma ampla crise internacional. No presente artigo vamos detalhar os possíveis caminhos de evolução da crise internacional surgida a partir do projeto norte-coreano de rearmamento.

A crise que ninguém quer
A insistência da Coréia do Norte em avançar com seu programa de rearmamento, inclusive nuclear, tornou-se um dos principais focos de crise na Ásia Oriental e um dos elementos de pressão na política externa de Obama. Trata-se, tipicamente, de uma ¿estratégia de fuga para frente¿. Sem saída política ou econômica, o regime ¿ quase condenando sua população à fome e ao trabalho forçado - investe em uma espetacular corrida armamentista. Especialmente na balística, onde já obteve notórios sucessos, e na produção de armas nucleares. Busca, assim, uma janela aberta para receber divisas ¿ a Coréia ainda possui clientes compradores de armas na África e no Oriente Médio ¿ mas, principalmente, uma forma de obrigar a comunidade internacional a aceitar seus termos.

O que a Coréia deseja? O seu reconhecimento pelos EUA e o Japão, acompanhado de um tratado de segurança, garantindo sua plena existência. E, em seguida, de forma urgente, ajuda econômica. Alimentos e combustíveis estão no topo da lista. Pyongyang estaria disposta a renunciar aos seus programas, inclusive entregar as armas nucleares existentes, abrir suas instalações a Agência Internacional de Energia Nuclear/AIEA, caso as conversações 1+5 (Coréia do Norte+EUA, China, Rússia, Japão e Coréia do Sul), Beijing, caminhem nesta direção. A alternativa ¿ a má alternativa ¿ seria a escalada da crise em direção a uma nova guerra na península.

Neste caso, ninguém está seriamente interessado. O impacto sobre a economia internacional seria imenso, com os riscos sobre a riqueza de Seul e Tóquio, ambos sobre ameaça direta dos mísseis de Pyongyang. A nova geração de mísseis coreanos comprovadamente pode colocar em risco ao menos 15 grandes cidades japonesas, além do fato de que Seul e outros grandes centros industriais da Coréia do Sul estão, igualmente, ao alcance dos mísseis e, mesmo, da artilharia norte-coreana. Da mesma forma, importantes instalações norte-americanas em Okinawa, Guam ou no Havaí estão, também, sob ameaça. Embora não seja capaz de vencer uma nova guerra peninsular, a capacidade de Pyongyang causar um dano terrível as duas grandes economias orientais é comprovada, particularmente depois dos testes nucleares realizados em 2009. Além disso, a guerra causaria um dramático movimento de fuga de capitais, derrubando o yen e causando uma crise financeira mundial.

EUA: impotente frente a Pyonyang
Os EUA não possuem tropas ou meios mecanizados suficientes para uma operação contra os norte-coreanos e precisariam da ajuda, paradoxal, da China Popular. Uma onda de nacionalismo sacudiria o Japão, podendo levar o país ¿ ante a ameaça dos mísseis norte-coreanos - a um vasto programa de rearmamento militar, inclusive nuclear. O Japão poderia fazê-lo em 18 meses, com facilidade e segurança, posto que possui os meios financeiros e tecnológicos. Este seria um cenário de crise estratégica profunda na região mais rica do planeta, com uma reviravolta profunda nos dados estratégicos macrorregionais.

Nem China, nem EUA e nem Rússia gostariam de um renascimento militar do Japão. Muito especialmente a China Popular, que se veria na iminência de desviar vultosos recursos de seu programa de desenvolvimento econômico e social para a construção de uma gigantesca panóplia nuclear, abrindo uma gigantesca crise estratégica na Ásia Oriental. É neste sentido que as negociações de Beijing devem ser consideradas o melhor caminho para a resolução da crise, evitando uma escalada bélica que nenhuma das partes verdadeiramente deseja. A declaração do Presidente Obama, em dezembro de 2009, sobre a necessidade de um common understandings com Pyongyang foi bem recebida na capital norte-coreana. Assim, as declarações de fim de ano do ¿Querido Líder¿ coreano, favoráveis a um entendimento com os EUA, traduzem a compreensão de ambos os lados de que a melhor, ou mesmo a única saída, é a negociação. Para isso será necessário convencer o público interno de ambos os lados.

Nos EUA os setores neoconservadores, alijados do poder, mas ativos na Comissão de Política Externa e de Defesa do Congresso, bem como no interior do CentCom, procurarão desenvolver esforços em direção a um maior endurecimento com Pyongyang. Da mesma forma, os setores nacionalistas em Tóquio, buscando o acirramento da crise para justificar uma saída de restauração do poder militar nacional, apostam num incidente ¿ principalmente entre a Marinha Imperial e a Marinha norte-coreana nas águas disputadas do Mar do Japão - que possa justificar uma ação militar capaz de emancipar, de uma vez por todas, o Japão dos entraves decorrentes da II Guerra Mundial. Por sua vez, em Pyongyang, onde o ¿Querido Líder¿ dá claros sinais de decrepitude física e se joga abertamente a sucessão, os pilares do regime ¿ as forças armadas, o Partido e a burocracia do Estado ¿ lutam para estender seu controle sobre o Estado. A firmeza (ou a temeridade) em face dos Estados Unidos e do Japão joga um importante papel de definição no jogo político interno da Coréia.

A Natureza do regime em Pyongyang
É fundamental estudar e esclarecer a natureza do regime de Pyongyang e o comportamento de suas instituições. A mediocridade das análises da mídia Ocidental ¿ sempre repetindo fórmulas fechadas sobre ¿a última ditadura stalinista¿ ou ¿a dinastia comunista¿ ¿ não é suficiente para perceber as características e antecipar as ações do governo norte-coreano.

Da mesma forma a ausência de um acompanhamento das instituições centrais do Estado ¿ FFAA, Partido e burocracia do Estado ¿ acentuam a falta de compreensão do fenômeno norte-coreano. Desde 1953, quando da derrota e do enfraquecimento da Coréia do Norte, Kim Il-sung (1912-1994), ¿o Grande Líder¿ ¿ fundador da República e pai do atual ¿Querido Líder¿, pode realizar uma série de expurgos no Partido Comunista, expulsando e executando as lideranças comunistas autônomas da Coréia.

Em seguida deu-se o expurgo da facção ¿russa¿, com o ¿desaparecimento¿ dos políticos pró-Moscou no interior do Partido. De forma continua Kim Il-Sung voltou-se contra a chamada ¿Faccção Yenan¿, composta por um grande número de comunistas coreanos membros originais do Partido chinês e de orientação maoísta. A desestalinização na URSS e, em seguida, o conflito sino-soviético, deram largo grau de autonomia a Pyongyang ( cortejada tanta por Beijing quanto por Moscou e alvo da ¿ajuda¿ fraterna dos dois campos socialistas ). O núcleo do poder passa a ser exercido pelo grupo restrito de ex-combatentes da guerrilha coreana contra a ocupação japonesa na II Guerra Mundial e a própria família de Kim Il-Sung. Do ponto de vista formal o regime aproxima-se ¿ em plena era da desestalinização ¿ das formas de culto da personalidade típicas do stalinismo. Mas, o conteúdo é bem outro.

Desde meados de 1966, Kim Il-sung organiza e impõe ao Partido Comunista uma doutrina nova e original sobre o socialismo, denominada de ¿Djoutché¿ ou ¿Joutche¿ ( anunciada já em discurso para o Partido em 1955 ), baseada largamente nos princípios gerais do confucionismo clássico chinês, com grande ênfase sobre a autoridade, hierarquia, independência nacional e auto-suficiência. Em 1970 o Partido assume oficialmente a doutrina djountché como o pensamento socialista autêntico da Coréia, inserindo seus princípios nos seus estatutos. Já em 1980 a declaração clássica de adesão ao marxismo-leninismo do Partido Comunista é substituída por elementos puramente djountché.

A busca de uma solução
Assim, malgrado todos estejam interessados numa solução negociada ¿ embora não haja acordo sobre os termos de tais negociações ¿ é sempre possível, que o perigoso jogo de apostar no risco permanente possa fugir de controle. Os termos aceitáveis seriam, para Washington e Tóquio, os seguintes: i. o fechamento, sob supervisão da AIEA, das instalações nucleares de Yongbion; ii. O desmantelamento dos programas armamentistas, tanto da balística quanto atômico; iii. O compromisso da Coréia do Norte em não transferir tecnologia sensível para nenhum outro país. Para Pyongyang os termos aceitáveis seriam: i. imediato reconhecimento diplomático do regime norte-coreano por Washington e Tóquio; ii. Assinatura de acordo de paz; iii. Ajuda econômica imediata e constante, em troca da entrega dos estoques de armas hoje existentes sob domínio norte-coreano.

Tal acordo supõe, contudo, medidas prévias de mútua confiança hoje inexistentes. Assim, as declarações do mês de dezembro são, por enquanto, um primeiro e tímido passo na direção certa.





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