Sábado, 30 de Julho

19/02/2016 - Copyleft

O câncer é outro, deputado

O ex-secretário de direitos humanos diz que crê na 'cura gay' tanto quanto na cura do câncer. Mas o verdadeiro câncer é a mistura de religião e política.


Marcelo Gruman
Solidariedade na Câmara / Flickr

Em recente entrevista ao jornal O Globo, o pastor evangélico Ezequiel Teixeira, até então secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, afirmou, em meio às justificativas para o fechamento de quatro centros de assistência à população LGBT, e da suspensão do serviço de teleatendimento, que crê na “cura gay” tanto quanto na cura da AIDS e do câncer, tal crença alicerçada no fato dele “ser fruto de um milagre de Deus também”. Ele negou considerar a homossexualidade uma doença, embora acredite que “todo mundo pode receber uma transformação, uma mudança”. O governador do Rio de Janeiro se viu numa sinuca de bico e, imagino que lamentando a sinceridade pública do pastor, fundador da igreja evangélica Projeto Nova Vida, não teve alternativa que não exonera-lo.
 
Ezequiel Teixeira exerce atualmente o primeiro mandato de deputado federal, tendo sido eleito com nada menos do que trinta e cinco mil votos. No editorial do informativo do seu mandato, afirma que sua luta “não será somente pelo segmento evangélico, mas por todos os conservadores que estão ameaçados por uma minoria que atenta contra os bons valores e costumes, além da garantia, do respeito e da dignidade humana”. Defende a “família tradicional e o apoio à vida” e se diz vítima de intolerância por ser identificado apenas por sua trajetória como pastor evangélico. Sem dúvida alguma ele é o menos responsável pela trapalhada do governador do Rio de Janeiro ao decidir nomeá-lo uma vez que seus posicionamentos a respeito do casamento homossexual, aborto e família nunca foram surpresa para ninguém, conforme suas declarações no tal informativo parlamentar e, acredito, nas pregações para seu rebanho amestrado. Respondendo ao coordenador do programa Rio Sem Homofobia, Claudio Nascimento, Teixeira é de uma sinceridade comovente, pouco comum na verborragia demagógica dos políticos de carreira:
 
Os incomodados que se mudem. Eu estou aqui e bem. Quem é o secretário? Se está desconforme com o secretário, o que vou fazer? Eu não o poderia ter exonerado? Eu exonerei várias pessoas… Estou tentando caminhar — afirma, antes de destacar que, ao ser escolhido para o cargo, suas posições pessoais já eram conhecidas. — Fui eleito com essas convicções. Fui convidado para estar aqui. E todos que me chamaram sabiam das minhas convicções. Até porque eu tenho convicção, mas respeito todos os outros que não têm a mesma que a minha.
 
Algumas considerações.


Alguém duvida que o governador do Rio de Janeiro cabalou votos no curral eleitoral administrado pelo agora ex-secretário? Donde não ser plausível crermos que o governador não sabia onde estava se metendo. Ajoelhou, tem de rezar, neste caso, literalmente. Nada de novo no front do “toma lá, dá cá” da política, exceção feita à transferência para o palco da plateia de nós, bobos da corte, daquilo que, normalmente, permanece na coxia do espetáculo.
 
Sem dúvida, o governador do Rio de Janeiro pesou muito bem os prós e contras de manter o pastor à frente da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, consciente da perda de votos de parte do rebanho evangélico que compactua com o fel destilado por seu representante. A balança, aparentemente, pesaria mais do lado daqueles que acham que Teixeira “extrapolou”. Estupra, mas não mata...
 
Não deve espantar mais a ninguém a comparação estapafúrdia eivada de preconceito e maldade entre câncer e homossexualidade, algo que deve ser extirpado do corpo porque leva à dor, à indignidade humana, ao sofrimento. É parte do discurso dos “conservadores”, expressão usada pelo próprio pastor ao definir-se a si mesmo e aos seus companheiros de marcha para jesus. Vai na mesma linha daqueles que acreditam na equivalência entre homossexualidade e pedofilia, ou seja, não só é uma doença, mas crime.
 
É ridícula a acusação do pastor de que está sendo vítima de intolerância, afinal, só é possível combate-la fazendo-se uso do mesmo veneno. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, já diz o sábio ditado popular. Devemos ser intolerantes com os intolerantes. Ademais, o ex-secretário e deputado federal, na época da campanha eleitoral, baseava sua plataforma (alguém dúvida?) segundo suas convicções religiosas, que deveriam permanecer no espaço privado, diga-se de passagem, e como representante de uma das centenas de denominações evangélicas que infestam a cidade. É inacreditável, uma aberração esquizofrênica irresponsável e desumana nomear para uma secretaria que elabora e executa políticas públicas de defesa dos direitos de minorias historicamente marginalizadas um indivíduo que se coloca, vejam só, contra tais políticas e acredita na “cura” destas minorias que deveria defender. Ironicamente, estas minorias são uma ameaça a seu modo de ver o mundo, “que atenta(m) contra os bons valores e costumes”, entendendo-se bem que “bons valores e costumes” são os da heterossexualidade, família composta por pai com pênis, mulher com vagina e filhos com respectivos órgãos genitais. Os tais “referenciais simbólicos”. E a felicidade, que é o que importa no ambiente familiar, fica em segundo plano.

Finalmente, é lamentável que um candidato que se apresenta com pastor evangélico arrebanhe trinta e cinco mil votos. Ele e outros que compõem a chamada “bancada evangélica” representam parte considerável da população brasileira que compartilha dos mesmos valores e visão de mundo, que tem dificuldade de conviver com o “outro”, com o diferente, que é intolerante. As minorias sexuais, apenas para ficar no exemplo que o caso do pastor trouxe à tona, não querem converter ninguém, não ameaçam ninguém com sua “lascívia desenfreada”, querem apenas ter seu direito humano fundamental de ser feliz respeitado. Será o medo de sentir-se atraído pelo diferente, pelo “estranho” que motiva episódios de violência e intolerância contra gays e lésbicas? Medo de “gostar da fruta”? Quem não se lembra do filme Beleza Americana, o pai machão que sucumbe aos encantos da masculinidade do personagem vivido por Kevin Spacey?
 
O câncer, deputado, é outro. É a mistura de religião e política, é o assalto do Estado brasileiro pelo que há de mais anacrônico, atrasado, preconceituoso e intolerante quando se fala de direitos humanos. Heterofobia? Bobagem. Todos têm seu lugar ao sol. Por enquanto.
 



Créditos da foto: Solidariedade na Câmara / Flickr



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