Quarta-Feira, 01 de Junho

 

24/01/2016 - Copyleft

'Não vão conseguir privatizar a Petrobras'

O economista Francisco Soriano lembra que, apesar da crise, a companhia aumentou sua produção em quase 5% no ano passado.


Darío Pignotti
Petrobras

Brasília - “Não vão conseguir privatizar Petrobras”, a certeza parte do economista e diretor do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro, Francisco Soriano, que respalda sua afirmação com cifras: “apesar das crises interna e externa, nós aumentamos a produção em quase 5% em 2015, com 2,1 milhões de barris por dia, e superamos as previsões no plano de negócios da empresa, com um desempenho excelente da área do pré-sal (águas ultraprofundas)”.


– Analistas do mercado dizem que será inevitável fazer reformas na Petrobras.


– São opiniões interessadas, parte de uma série de ataques que vêm de todas as partes, como os que fazem os acionistas estrangeiros que iniciaram causas na justiça norte-americana. A verdade é menos dramática, a Petrobras é uma empresa forte, inclusive depois dos ataques que visam, há anos, levar à sua privatização. Não se pode usar o argumento de que está quebrada, porque ela vem aumentando sua produção todos os meses, e já estamos perto de 1 milhão de barris extraídos dos poços da área do Pré-sal (descobertos em 2007). Isso anula o que dizem os meios e as agências internacionais que anunciavam que não seria possível tirar um produto rentável de tanta profundidade, porque se necessitava uma tecnologia muito cara. Nós fizemos. Tiramos petróleo de mais de 5000 metros de profundidade, porque temos tecnologia de ponta, engenheiros reconhecidos no mundo todo.


– O Pré-sal é a joia da coroa.


– Sim, falando de 90 bilhões de barris de óleo cru comprovados, e nossos engenheiros consideram que podemos ter outras reservas gigantes enterradas, é uma possibilidade que poderia duplicar, triplicar, quem sabe multiplicar até mais as reservas comprovadas. São recursos muito cobiçados por outras companhias e pelos países centrais, onde há recursos insuficientes, por isso eles estão com os olhos sobre o nosso litoral marítimo, uma zona econômica das mais importantes neste momento. Não se trata só da riqueza, é um tema geopolítico. Quando o Pré-sal foi descoberto, os Estados Unidos moveu sua IV Frota para perto das costas do Rio de Janeiro, onde estão os campos gigantes.


– Até onde chega a pressão norte-americana?


– Os ataques contra a Petrobras nascem de várias forças aliadas do exterior, e claro que os Estados Unidos fazem parte disso, mas não somente. Eles têm apoios dentro do nosso país. É uma engrenagem grande. Falamos de um poderoso lobby estrangeiro, da participação de serviços de inteligência como a NSA (Agência Nacional Segurança estadunidense), que pactuam com os grupos golpistas do Brasil: há empresários participando, o setor financeiro e os partidos de direita, que pedem o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
 
– A disputa pela Petrobras explica o impeachment (juízo político)?


– São gigantescos os interesses gigantescos envolvidos na campanha pela queda de Dilma, uma presidenta que nunca foi simpática com as grandes petroleiras privadas, desde os tempos em que era ministra de Lula e supervisou o novo marco regulatório do petróleo. Uma presidenta que não fez os leilões de campos que as estrangeiras pediram. Ela autorizou sim o leilão do megacampo de Libra, que foi vencido por um consórcio formado pela Petrobras e por empresas da China e de outros países, num leilão onde as empresas norte-americanas ficaram de fora.


– Esse leilão foi depois das escutas ilegais da NSA.


– Isso foi um escândalo muito grave, porque a NSA invadiu as comunicações da presidenta e da Petrobras, e nunca disseram que informações foram roubadas. Não será que essa informação é a que se usa agora para atacar a Petrobras? Eu acho que essa pergunta deve ser feita. A presidenta pediu a Barack Obama que entregasse a informação que foi roubada pela NSA, mas nunca se devolveu nenhum dado, algo bastante raro. Foi um caso gravíssimo, e depois disso Dilma teve a altivez de rejeitar um convite de Obama para uma visita de Estado (marcada para meados de 2013). Foi algo inédito, uma mandatária sul-americana rejeitando uma visita a Washington. Antes, os presidentes iam correndo, independente da situação.


– O marco regulador do petróleo é um ponto central?


– As corporações internacionais perderam toda esperança com Dilma assim que o governo deu sinais de que não vai retroceder no caso do marco regulador do petróleo. Há muitas críticas à presidenta que são justificadas, mas no caso da política para o petróleo eu acho que ela não vai dar o braço a torcer, e não permitirá que voltemos à legislação entreguista de Fernando Henrique Cardoso. Durante aqueles dois mandatos (entre 1995-2003) o modelo de concessões foi imposto a pedido das multinacionais, o que acarretou problemas seríssimos. As forças Armadas ocuparam refinarias e houve repressão pesada contra os trabalhadores. Também houve a demissão de centenas de companheiros petroleiros. FHC passou com um rolo compressor sobre o movimento sindical, suspendeu nossas fontes de financiamento, que eram absolutamente legais.


– O que querem mudar da atual lei?


– Eles querem alterar a legislação que surgiu no segundo governo de Lula (2007-2011), para ter acesso às nossas reservas. O que eles querem? Que haja mais leilões, restabelecer o regime de concessões do FHC, quando a Shell, a British Petrolium e a Chevron ganhavam os campos e se tornavam donas do petróleo. Agora isso não acontece mais, porque temos um regime de participação compartilhada.


– Onde está a diferença central?


– Agora também há leilões, mas a lei obriga que mesmo quando uma petroleira estrangeira vence, a extração seja realizada em conjunto com a Petrobras, e a Petrobras decide quanto será extraído e é a dona do recurso. As multinacionais já não podem levar tudo o que querem a qualquer momento. Agora o petróleo é tratado como um bem não renovável, estratégico, destinado ao desenvolvimento da indústria energética e do país em geral.


Ações em baixa


Nesta sexta-feira (22/1), as ações da Petrobras caíram 7% na Bolsa de Valores de São Paulo, quando se cotizaram a menos de cinco reais, o valor nominal mais baixo desde 2003.
 
Soriano relativizou a importância do “sobe e desce da bolsa”, pois a “empresa real é saudável, e em caso de mais oscilações, de que o preço do barril siga caindo, é possível contar com alguma ajuda do governo brasileiro ou dos nossos sócios do BRICS – a China, por exemplo, que já fez fortes investimentos”.


– A Petrobras anunciou uma redução de 32 bilhões de dólares em investimentos.
 
– Devemos esclarecer que isso não será em um ano, que é dentro do período 2015-2019, e que haverá investimentos de 98 bilhões de dólares que não serão afetados os investimentos nos campos da área do Pré-sal. Não queremos dizer com isso que a diminuição nos investimentos é boa, ou que estamos indiferentes, nós estamos categoricamente contra a venda de ativos da empresa, que agora alguns chamam “desinvestimentos”, e especialmente contra a venda de campos do Pré-sal, isso é inaceitável, mas por enquanto não está ocorrendo. Mas também é preciso dizer que há vendas de ativos que são lógicas, como quando se vendem navios antigos ou unidades que perderam sua capacidade de produção e não vale a pena reformá-las.


– Haverá demissões devido à crise?


– Não estamos enfrentando problemas de demissões dos trabalhadores permanentes neste momento, e somos mais de 80 mil. O que está ocorrendo é a demissão de trabalhadores terceirizados, que aumentaram muito nos últimos anos, algo que nosso sindicato vem criticando de forma geral.


Sobre o escândalo de corrupção: “Eram uma minoria”


O jornal paulista O Estado de S. Paulo publicou uma matéria dizendo que o arrependido Nestor Cerveró, o ex-diretor da Petrobras condenado por corrupção, declarou à Procuradoria que recebeu 300 mil dólares de propina pela venda da empresa Transener às argentinas Electroingeniería e Enarsa. Embora o processo pelo chamado “Petrolão” esteja sob segredo de justiça, o matutino reproduziu parcialmente essa confissão, na qual o ex-responsável da área internacional da Petrobras – a qual a Transener pertencia – menciona reuniões com o ex-ministro argentino Julio De Vido, mas não o indica como responsável pelos subornos, a maior parte dos quais “vieram da Argentina”. E comenta que o governo de Néstor Kirchner considerava “estratégico” que a transmissão de energia ficasse em mãos argentinas, impedindo que fosse operada por norte-americanos.
 
Néstor Cerveró se refere também a um almoço no qual participou, entre outros, o ex-ministro argentino Roberto Dromi – do governo de Carlos Menem. Consultado sobre as declarações de vários ex-hierarcas da Petrobras processados ou condenados por corrupção, o sindicalista Francisco Soriano declara que “a conduta desviada de alguns poucos não deve manchar o coletivo de trabalhadores e diretores da Petrobras”.
 
“Houve manobras obscuras de parte de altos funcionários, eram uma minoria dentro dos 80 mil trabalhadores que somos honestos, que defendemos a Petrobras e que consideramos que a corrupção é uma forma de atacá-la. Muitos desses corruptos vêm da época do governo de Fernando Henrique Cardoso. O que o Cerveró diz deve ser analisado com muito cuidado, porque ele busca a recompensa da delação premiada que o juiz Sérgio Moro entrega arbitrariamente, algo que me faz lembrar o modo de atuar da ‘República do Galeão’.”


– Por que a República do Galeão?


– Em 1954, pouco depois de criar a Petrobras, o presidente Getúlio Vargas sofreu um ataque sistemático das foras reacionárias, que promoveram uma investigação judicial liderada por um juiz da Força Aérea, algo absurdo do ponto de vista institucional. Era parte do plano golpista. Depois, o tribunal da Aeronáutica ordenou a prisão de gente próxima a Getúlio. Todo esse processo foi repudiado pelas forças populares, que usaram a expressão “República do Galeão” para denunciar o que acontecia. Hoje, está ocorrendo algo parecido com o processo do chamado “Petrolão”, porque é um caso típico de estado de exceção judicial. Um atentado judicial claro. Temos agora no Brasil um grupo de juízes e promotores que são parte de um plano para atacar a Petrobras e dar um golpe contra Dilma. O juiz (Sérgio) Moro (encarregado do “Petrolão”) realizou cursos financiados pelo Departamento de Estado norte-americano, está relacionado com os Estados Unidos, e sabemos que é simpatizante do PSDB. Moro é parte de uma engrenagem, conta com a simpatia dos meios de comunicação hegemônicos, os quais recebem informação filtrada pelos promotores. Assim chegam as confissões dos corruptos, declarações que partem de pessoas interessadas não confiáveis, e que se publicam de forma parcial, também segundo os interesses ideológicos da imprensa. É curioso que tudo o que sai nos diários seja os ataques ao PT e a ministros, e que quase nunca saia uma linha de declarações que mencionam políticos da oposição ou o próprio ex-presidente FHC. Na semana passada, o próprio Cerveró confessou que foi entregue uma propina de 100 milhões de dólares ao governo FHC, estamos falando de uma cifra muito alta. Mas nenhum meio deu maior importância, e o assunto morreu no dia seguinte.
 
Tradução: Victor Farinelli



Créditos da foto: Petrobras



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