Quinta-Feira, 30 de Junho

 

28/01/2016 - Copyleft

Bancada ruralista: legalizar para rentabilizar a terra

Muitos fundos de investimentos multimercados entraram no negócio de terras. George Soros, por exemplo, conta com 270 mil hectares.


Najar Tubino
Lilian Brandt

Rentabilizar é um verbo novo que aprendi com o executivo da Brasilagro, Júlio Piza, empresa com 319 mil hectares no país e mais de 100 mil no Paraguai, criada por agentes financeiros em 2006, que por relações de amizade, transformam o mundo dos negócios em verdadeira ação entre amigos. A Companhia, como registra no relatório de sustentabilidade 2014/15, é uma das maiores empresas brasileiras em quantidade de terras agriculturáveis e tem seu plano de negócios baseado na valorização das propriedades rurais, como o principal vetor financeiro. Em junho de 2015, a Brasilagro vendeu a Fazenda Cremaq, no Piauí por R$277 milhões – 27.745ha-, pagos em 90 dias. No mesmo dia as ações da empresa subiram 5,3% na Bovespa e em N. York, os lucros chegaram a R$180 milhões e os acionistas ganharam mais de R$80 milhões em dividendos.
 
O acionista controlador da Brasil agro é a empresa argentina Cresud, dos irmãos Alejandro e Eduardo Elstajn – com 39,7% das ações – e mantém na América do Sul 864.424 hectares como ativos. Em segundo lugar como acionista está o JP Morgan Whitefriars INC. com 7,44%, seguido pelo Autonomy Capital com 6,7% e o acionista fundador Elie Horn com 5,6%. Como funciona a ação entre amigos. Na primeira década deste século, o grande negócio dos funcionários de grandes instituições era montar um fundo de participações, captando dinheiro no exterior. Elie Horn amigo dos irmãos Elstajn, que tinham como líder espiritual o megaespeculador George Soros, fez uma ligação para apresentar o jovem José Carlos Reis de Magalhães, que havia criado a gestora Tarpon – nome de um peixe que vive em águas tropicais.
 
Ação entre amigos: bancada ruralista vai liberar geral
 
Todos interessados no grande negócio das terras agriculturáveis que o Ministério da Agricultura divulga mundialmente como uma área disponível de 101 milhões de hectares. Em 2006, nasceu a Brasilagro com o apoio da Cresud e da Tarpon, além de Elie Horn, que é o dono da Cyrela, maior construtora do país. Hoje a Cresud, que é nacional e não está enquadrada na restrição que a Advocacia Geral da União impôs ao capital estrangeiro interessado em comprar terras no Brasil, controla a Brasilagro. Oficialmente, os estrangeiros compraram 4,3 milhões de hectares, mais de 800 mil no Mato Grosso, embora o número de imóveis 12 mil – esteja localizado no estado de São Paulo. Houve um crescimento nos últimos anos. Mas isso está longe de traduzir o que ocorre no mercado.
 
Mesmo assim, seguindo a ação entre amigos, no caso a bancada ruralista, por intermédio do deputado federal Irajá Abreu (PSD-TO), que também é filho da ministra Kátia Abreu e presidente da Comissão de Agricultura, assumiu o projeto lei 4.059, em regime de urgência, que libera a compra de terras por empresas brasileiras com apenas 0,1% de capital. Veda a compra para fundos soberanos e ONGs, e ainda revoga a lei 5.709/1971, como registra um estudo do DIAP “define que a lei nunca existiu e convalida as aquisições e arrendamentos celebrados por pessoas físicas e jurídicas, e que as restrições impostas para a compra de terras no Brasil – de 1971 até 1999 – não passaram de brincadeira”.
 
Terra como investimento financeiro
 
Muitos fundos de investimentos multimercados entraram no negócio de terras. Os mais conhecidos, além da Brasilagro, são a Sollus Capital, que nasceu de um ex-integrante do Pactual, Gilberto Sayão; a Tiba Agro, que é resultado da Vision Brazil Investimentos, de dois ex-integrantes do Bank of America – Fábio Greco e Amaury Fonseca Junior -; a Agrifirma, com participação do Barão Jacob Rothschild, do Reino Unido e seus amigos Jim Slater e Raymond Kwok e Adrian Fu, de Hong Kong; a Agrinvest, do fundo Ridgefield Capital; a SLC LandCo, associada ao fundo britânico Valiance Asset Management, entre outros.
 
O caso do Barão Jacob Rothschild é interessante. A empresa já mudou de nome, uma parte se chama agora Genagro, mas pesquisando os fundos de investimentos consegui um prospecto do GP Investimentos, do bilionário brasileiro João Paulo Lemann. Um dos fundos criados era para investir exclusivamente na Agrifirma – no caso R$130 milhões. O Barão tem pouco mais de 60 mil hectares no oeste baiano. Trata-se de relações de amizade que visam outros negócios é lógico. George Soros, por exemplo, é o dono da Adecoagro, com três usinas de etanol no Brasil, e 270 mil hectares, contando as fazendas na Argentina e Uruguai. Um dos seus agentes era o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, dono da Gávea Investimentos, que vendeu o controle para o JP Morgan, onde o seu ex-chefe, Fernando Henrique Cardoso participa do Conselho Consultivo. O megainvestidor coitado precisou de um empréstimo do BNDES para concluir uma de suas usinas – R$ 488 milhões.
 
A visão de cerrado do Barão
 
Muito educativas são as palestras que estes executivos costumam dar para explicar seus negócios. Amaury Fonseca, por exemplo,” diz a seus clientes que as aquisições de terras ocorreram em terras degradadas e em recuperação, sempre fora da região Amazônica, porque nossos investidores não querem estar lá”. Preferem o cerrado, que na visão da empresa do Barão Rothschild – disponível no site da Agrifirma, que está totalmente desatualizado, diz o seguinte:
 
“- A Agrifirma não opera na Floresta Amazônica ou em áreas de risco de desmatamento. A terra a ser explorada é caracterizada por baixa densidade de vegetação rasteira”.
 
E a filosofia da Agrifirma é a de cuidar do meio ambiente, o caminho mais seguro para obter os melhores resultados com a terra. Deve ser esse um dos motivos para que troquem de nome tão rapidamente. Enfim, depois da crise financeira, algumas fusões aconteceram. A Los Grobo argentina comprou a Sollus e a Companhia Mineira de Açúcar e Álcool – 3 usinas no Triângulo Mineiro. A Agrinvest vendeu uma parte para investidores brasileiros, a Touradji, fundo criado por Paul Touradji, que tem uma visão fundamentalista do mercado de commodities, também vendeu a sua parte na Sollus.
 
Prefeito milionário e empresa endividada em dólar
 
A SLC Agrícola continua arrendando as propriedades da SLC LandCo e ocupa 370 mil hectares em seis estados – comprou uma fazenda com mais de 13 mil hectares no MT no ano passado por R$77 milhões. E os japoneses das Mitsubishi Corporation compraram a participação que era da Los Grobo na Ceagro, empresa que distribui agroquímicos, planta, arrenda, comercializa, entre outras coisas. A Mitsubishi pagou R$ 500 milhões para obter 80% da empresa, agora é chamada de Agrex Brasil. Por último, o caso da Vanguarda Agro, que é uma das três empresas com ações em bolsas de valores – as outras duas são a SLC e a Brasilagro. A Vanguarda foi criada por Otaviano Pivetta, um camioneiro gaúcho que chegou a Lucas de Rio Verde (MT) na década de 1980. Depois se tornou um grande produtor de commodities e também político. Está no terceiro mandato como prefeito de Lucas e é considerado político municipal mais rico do país – com R$321 milhões de patrimônio.
 
A Vanguarda em 2015 tinha uma dívida líquida de US$242,5 milhões e suas ações caíram 74%, continua ocupando 250 mil hectares, embora tenha devolvido vários arrendamentos. Somente 80 mil hectares são próprios. Lucas é conhecida no país por dois casos: o do envenenamento de uma escola por agrotóxicos e por ser um paraíso na terra, onde as escolas tem piscinas e computadores. No caso de Pivetta, que se considera um homem público por natureza, envolvido com os problemas da sua comunidade- e do estado, porque já foi candidato a vice-governador- a ação entre amigos é muito mais ramificada. Afinal de contas, porque um empresário tão bem sucedido teria tempo para resolver os problemas da pequena Lucas do Rio Verde com seus 50 mil habitantes – sem contar que seu grupo político está no poder desde a década de 1990- enquanto o dólar sobe e a dívida da Vanguarda idem na mesma proporção?       





Créditos da foto: Lilian Brandt



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