Quinta-Feira, 08 de Dezembro

18/01/2016 00:00 - Copyleft

Macri contra o narcotráfico: a cruzada que terminou em vexame

Embora careça de um diagnóstico integral sobre o narcotráfico, o governo de Macri insiste em apresentar o tema como uma guerra.


Martín Granovsky - Página/12
Casa Rosada

O governo de Macri está tão preocupado em construir o relato épico da cruzada contra os narcotraficantes que sequer pode desfrutar de uma vitória sensata, como a captura de três presos depois de somente 15 dias. O último episódio levou o secretário de Segurança, Eugenio Burzaco, autor da Epopeia de Santa Fe, a entrar para a história. Burzaco mostrou um vídeo caseiro na quinta-feira (14/1), dizendo se tratar de algo grave, e teve que retificar essa declaração depois. A fita exibia a imagem de um “perigoso narcotraficante”, que no fim das contas era um simples morador da região de Santa Fe, e um supercarro que supunha ser uma Hummer del Cartel de Juárez, e não era mais que uma lata velha. Para os cabeças da coalizão governista, o ex-governador Antonio Bonfatti (líder opositor da região) seria como o Chapo Guzmán. Estão vendo ainda quem fará os papéis do ator Sean Penn e da atriz Kate del Castillo, que deram o toque bizarro à captura do traficante mexicano.
 
A união dos argentinos, pobreza zero e a luta contra o narcotráfico, essas foram as três bandeiras de Macri durante a campanha. Mas agora, ele e seus funcionários insistem apenas na última. Talvez por decisão de seu caríssimo assessor Jaime Durán Barba, e estimulado pelo triunfo de María Eugenia Vidal na Província de Buenos Aires. Talvez seja por algum motivo mais simples, como a fuga dos irmãos Lanatta e de Víctor Schillaci, que impôs ao governo um trabalho que sua equipe de comunicação tentou a todo custo converter em façanha.


Sem diagnóstico


No dia 27 de setembro, o diário argentino Página/12 revelou o conteúdo de um documento sobre a questão das drogas assinado por uma pluralidade inusual de figuras. Contavam, entre outros nomes, os de Beatriz Sarlo, Luis Moreno Ocampo e dos ex-funcionários kirchneristas León Carlos Arslanian, Luis Tibiletti e Ernesto López. Também o do militante radical Jesús Rodríguez, cujo partido forma parte da coalizão governista, e o de José Octavio Bordón, indicado por Macri para ser embaixador no Chile. Um dos artífices da iniciativa foi o especialista em relações internacionais Juan Gabriel Tokatlian, convocado pela Casa Rosada em dezembro, junto com outro grupo de intelectuais. O documento pode ser lido na íntegra em: http://bit.ly/1iC9IG0.
 
O texto diz que o país ignora o que ocorre realmente, porque não há um diagnóstico integral. Explica que “um diagnóstico integral, pelo que entendemos, seria a existência e disposição, em todos os níveis do Estado, de um conhecimento institucional exaustivo, sistemático e atualizado do fenômeno das drogas. Esse não é o caso do nosso país, onde infelizmente prevalece a suposição, a intuição e a improvisação nessa matéria. Qualquer que seja o governo que assuma no dia 10 de dezembro, terá que lidar de forma urgente com o tema e levar adiante estudos e informes rigorosos e baseados na evidência em torno do tema das drogas, coordenar a socialização desse conhecimento em todo o aparato estatal e divulgá-lo ao conjunto da sociedade, para confirmar sua legitimação”.
 
Os informes rigorosos ainda não apareceram. Enquanto isso, todos os funcionários parecem se empenhar em mostrar sua melhor faceta, para a sociedade e para o presidente.
 
Antes da epopeia de Santa Fe, o anúncio oficial da recaptura dos três prófugos, ocorreu a façanha de Buenos Aires, que também teve sua cota de dramatização.
 
O primeiro deslize foi protagonizado pelo ministro de Segurança, Cristian Ritondo, quando disse: “nós já os cercamos”. Como se sabe, o operativo não incluiu a casa da ex-sogra de Cristian Lanatta. Depois Ritondo admitiu que sua declaração naquele momento talvez tivesse sido um erro. Talvez. Em privado, os dirigentes provinciais do macrismo aceitaram que, talvez, anunciar a emergência penitenciária e não desarticular antes o Serviço Penitenciário Bonaerense (SPB) teria sido outro erro. Talvez.
 
Como na tevê é preferível assistir a novela da moda, mas seria tonto se focar somente em sua parte divertida, ou nos erros de gravação.
 
Parte da versão oficial é de que um grupo de políticos inocentes se encontrou com uma situação calamitosa, a qual eles não conheciam. Isso sempre acontece: ninguém sabe tudo o que encontrará onde começa a trabalhar até que assume o cargo.
 
Mas Ritondo não é um calouro. Assumiu o Ministério de Segurança da Província aos 49 anos, não aos 19, e seu CV nacional é vasto, indo além da política portenha. Em 2001, ele foi vice-ministro do Interior, durante a fugaz gestão do presidente Ramón Puerta, um bom amigo de Macri que acaba de ser indicado como embaixador na Espanha, e também com Eduardo Duhalde – antecessor interino de Néstor Kirchner. Ritondo foi, durante muitos anos, a mão direita de Miguel Angel Toma, o secretário de Segurança de Carlos Menem, e também o de Inteligência de Duhalde, e agora colabora com Macri na nova política. Conhece o que ele mesmo chama de submundo da Grande Buenos Aires, a que, em parte, se forma com barras bravas – ele mesmo é conselheiro do clube Independiente – que se prestam a qualquer propósito.
 
Ritondo tampouco pode dizer que desconhece a Polícia Bonaerense, porque foi ele quem sugeriu à governadora Vidal a designação de Pablo Bressi como chefe da mesma. O comissário Bressi se tornou famoso em 1999 como negociador do sequestro em uma sucursal do Banco Nación. O sequestro terminou com dois reféns mortos e o assassinato de um dos sequestradores dentro da cela da comissaria 2. Bressi chegou a ser superintendente de Investigações do Tráfico de Drogas Ilícitas da Polícia Bonaerense, de onde passou à chefatura. No dia15 de novembro, Horacio Verbitsky publicou em Página/12 o histórico de Bressi, e também suas relações especiais com a DEA, a agência antinarcóticos dos Estados Unidos, que participa da regulação da oferta global de drogas – porque lhe parece mais simples isso do que baixar a demanda de cocaína e drogas sintéticas no principal mercado do mundo. A nota de Página/12 informava que Bressi era o candidato de Ritondo. Basta ver as datas para perceber que a primícia foi dada quase um mês antes da nomeação das novas autoridades. Ainda assim, Bressi chegou à chefatura, e não a perdeu nem mesmo depois da Façanha de Buenos Aires.


Contradições


A cruzada contra os narcos, sem diagnóstico nem plano de ação, mostra um governo que navega entre contradições que o aproximam de um grande vexame. É verdade que a penetração do narcotráfico aumentou na Argentina, tanto em Buenos Aires como nas províncias, e que os mesmos se beneficiam da relação de cumplicidade com a política e com as forças de segurança. Porém, será que a única exceção foi, como diz o governo, a Superintendência de Investigação do Tráfico de Drogas Ilícitas da Polícia de Buenos Aires? Que informação a governadora Vidal recebeu por parte de Ritondo sobre o narcotráfico na Grande Buenos Aires? A de Bressi? A que emanou da DEA? Da agência que não diz a verdade nem mesmo para a Casa Branca? A de Alejandro Granados, intendente de Ezeiza e ministro de Segurança de Daniel Scioli? Ou as informações de Ricardo Casal, o ministro de Justiça de Daniel Scioli que estava no cargo de diretor do Serviço Penitenciário Bonaerense(SPB)?
 
Sobre o SPB também sobra informação pública. A Comissão Provincial pela Memória (CPM) investiga a situação carcerária e a culpa dos carcereiros e seus chefes, e publica informes desde 2002, para os quais conta com um Comitê contra a Tortura que indaga sobre as condições dos suspeitos privados de liberdade nas delegacias ou prisões. No dia 29 de dezembro, a Comissão disse que declarar emergência carcerária não resolveria o problema, assim como, segundo a mesma, não tiveram sucesso as medidas idênticas tomadas pelos governadores Carlos Ruckauf, Felipe Solá e Daniel Scioli.
 
O ex-promotor Hugo Cañón, da CPM, faleceu sem ser convocado pelo novo Executivo provincial, para dar sua opinião especializada. Até agora, o mesmo acontece com a Comissão plena, um organismo de integração plural presidido pelo Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel.
 
É difícil que Pérez Esquivel rejeite um convite aberto. Inclusive diante do fato de o governo provincial designar Fernando Díaz para o comando do SPB, questionado numa nota difundida pela Comissão. Díaz também participou de gestões anteriores, outra mostra de que a crítica no discurso se contradiz com a continuidade observada nas ações, que são, até o momento, as duas caras da cruzada macrista.
 
Tradução: Victor Farinelli



Créditos da foto: Casa Rosada



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