Quinta-Feira, 28 de Julho

28/01/2016 - Copyleft

Mais uma vez a Europa é exemplo para o Brasil. Negativo.

O tratamento aos refugiados está trazendo de volta os piores espectros do racismo que ainda assombra os armários, os porões e os sótãos europeus.


Flavio Aguiar, de Berlim.
 Forças de Segurança da Macedônia

No filme 1492 - Conquest of Paradise (1492 - A conquista do Paraíso), de Ridley Scott, já bem perto do final, diante de tantas notícias negativas (cidade destruída por tufão, conflito com os nativos, rebelião de aristocratas obrigados ao trabalho) a rainha Isabel de Castela (Sigourney Weaver) afirma a um exausto Cristóvão Colombo (Gérard Depardieu) que tem diante de si: “Your New World is a catastrophe” (O seu Novo Mundo é uma catástrofe). Ao que Colombo retruca com uma pergunta: “Is the Old one an achievement”? (Será o Velho um sucesso?). Estou citando de memória, mas o sentido é este mesmo.

 

Ressalvadas as proporções e ressalvados os séculos de distância, a situação permanece neste século XXI, nas relações entre a mídia europeia, em grande parte, e o Brasil, o Novo Mundo que hoje, para aquela, é imperioso desconstruir.

 

Há uma renitente (e irritante) narrativa em curso de montagem, por todos os lados: o Brasil é um fracasso, o Brasil será sempre um fracasso, é necessário que o Brasil e os brasileiros saibam o seu lugar. Que não é nem nunca será no Pantheon dos povos e países bem sucedidos. O pregão repete: é um país infecto por moléstias altamente contagiosas, corrupto até a alma, enfrenta a pior crise econômica de sua história, e assim por diante. E ponha diante nisto.

 

Vamos reconhecer: o nosso país passa por um mau momento. Difícil. Obtuso politicamente, ou agudo, se quiserem. Mas dá para ter a noção de que é um mau momento, tudo, mas apenas isto. Não sou eu quem diz. É gente que vai de Stiglitz a Bill Clinton. Vamos sair desta. Bom, o governo precisa acordar. Mas vai acordar. O instinto de sobrevivência acaba falando mais alto.

 

Já a Europa…

 

Vai mal. Muito mal. Os sinais de “recuperação econômica” são débeis, embora continue o pregão de que tudo vai bem. Mas não vai. Veja-se o caso dos refugiados. O caso está trazendo de volta os piores espectros que ainda assombram os armários, os porões e os sótãos europeus. O racismo está de volta, e galopante, agora disfarçado sob o codinome de “diferenças culturais”. A extrema-direita baba e navega, de vela solta. Mandatários exibem-se perante seus mandados, dizendo bobagens como “só vamos receber refugiados cristãos” (judeu, então, não tem vez), caso da Eslovênia, República Tcheca, Polônia, Hungria. Reunidos em Amsterdã, os ministros do Interior (pasta da segurança, na Europa) dizem considerar a suspensão do acordo de Schengen (que permite a livre circulação de pessoas entre os 26 países signatários, 22 da União Europeia e 4 de fora), restabelecendo os controles nas fronteiras nacionais, falam em fechar as fronteiras nos Bálcãs e os mais radicais em até expulsar a Grécia do acordo. Isto, além de ser um absurdo, sugere uma retaliação diante do fato de Atenas ter um governo de esquerda que ousou contrariar (é verdade que ficou na retórica) a sacrossanta “austeridade”. 

 

Para completar este quadro já complexo, o Parlamento Nacional da Dinamarca acaba de aprovar uma lei que autoriza a polícia a revistar refugiados e confiscar seus bens e valores que excedam a quantia de 10 mil coroas (um pouco menos de 1.500 dólares), para que paguem por sua manutenção. O argumento que mais se brande a favor desta temeridade é o de que isto os “igualaria” aos cidadãos do país, que têm de pagar pelos serviços sociais de que usufruem. 

 

Mas debaixo deste argumento medra a suposta “igualdade” que consiste em tratar situações desiguais com o mesmo padrão, a mesma régua. Argumentam associações de defesa dos diretos humanos: o cidadão que foge de seu país por causa de uma guerra civil tende a levar tudo o que tem, ou pode. E agora será duplamente punido: além de ser forçado a abandonar sua terra, vai perder quase tudo o que tem (de maneira um tanto hipócrita a lei isenta bens que tenham “valor afetivo”, por exemplo, alianças de casamento).

 

Depois de tantos males que as desavenças europeias (para não falar das conquistas) causaram ao mundo, a União Europeia deve der considerada como um patrimônio da humanidade, não apenas dos europeus. É verdade que ela foi estabelecida um tanto atabalhoadamente, criando uma união monetária artificial antes de uma união política efetiva, o que potenciou a crise de 2007/2008 e aprofundou a desigualdade. Até na Alemanha a desigualdade aumenta: desde 2013 os 10% mais ricos detém 51% da riqueza nacional.

 

No seu mau momento, o Brasil está melhor do que em outros maus momentos: o desemprego aumentou, mas não é tão grande como já foi, e não faz muito. As reservas internacionais são grandes e estáveis. Não corremos (ainda, pelo menos) o risco de reeditarmos o que aconteceu durante o governo Dutra, que queimou em importações, muitas vezes de supérfluos, as reservas acumuladas durante a Segunda Guerra. Não temos perspectiva de golpe militar à vista, embora permaneça a ameaça do golpe jurídico/congressual/midiático.

 

Já por aqui a Europa está ameaçada por uma regressão estrutural de grande monta.



Bom, houve gente que acordou, na Grécia, Espanha, Portugal… Vejamos. E torçamos.



Mas dá vontade de glosar Fernando Pessoa: “Europa, hoje és nevoeiro”...


Créditos da foto: Forças de Segurança da Macedônia



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