Segunda-Feira, 02 de Janeiro

10/04/2013 06:39 - Copyleft

Não há desenvolvimento sem hegemonia

por: Saul Leblon

Saul Leblon

A inflação de 0,47%, em março, mesmo tendo estourado a meta oficial em 12 meses, mostra um arrefecimento que decepcionou a ortodoxia e a mídia.

Há meses que esse jogral clama por um 'choque de juros', como se fora um 'regulador Xavier' dos males do país.

Não é.

A eventual oscilação da Selic, na reunião do Copom do dia 17, se ocorrer, está longe de ser a panaceia cantada pelo rentismo.

Nem será a catástrofe almejada pelo conservadorismo, nem vai salvar a lavoura.

Na verdade, ela não altera as grandes determinações do quadro econômico e político atual.

O aumento do juro, num cenário em que a inflação incomoda, apenas confirma o quanto ainda se ressente o país de uma carpintaria de forças e planejamento democrático que imprimam, de fato, maior coerência ao processo de desenvolvimento.

A alta dos juros, por um lado, ‘reafirma ao mercado' a disposição do governo de coibir a espiral dos preços.

Ao mesmo tempo, calcifica desafios com os quais o país se debate para destravar o investimento nacional ( hoje abaixo de 20% do PIB).

O caso da indústria é ilustrativo.

O uso da capacidade instalada no setor recuou para 82,6% em fevereiro. Estava em 84,5%, em janeiro.

Portanto, sobra fôlego produtivo, mesmo com o juro em baixa.

Como, então, a reversão dessa variável ajudaria na desejável retomada do investimento fabril?

Como impedir que ela reacenda a revoada de capitais especulativos que valorizam o câmbio, aceleram importações, definham a competitividade da manufatura brasileira e geram desindustrialização?

Falta um amálgama nessa equação.

As transformações requeridas no processo de desenvolvimento de qualquer sociedade ensejam conflitos e fricções que a mediação exclusiva do mercado só faz exacerbar.

Nenhuma nação conseguiu estabelecer um ciclo longo de crescimento sem a contrapartida de uma hegemonia política que o sustente.

Um passo importante é ter um sistema de comunicação pluralista, que eleve o discernimento da sociedade sobre os seus desafios e as suas escolhas

Essa, talvez, seja a lição mais importante a extrair dos dilemas políticos e monetários dos dias que correm



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