Colunistas| 05/11/2004 | Copyleft

POLÍTICA

Marighella: Símbolo da luta pelo socialismo

Marighella ousou romper com o comodismo daqueles que depois de anos de adaptação e reboquismo à burguesia nacional estavam paralisados diante do golpe. Deixou gravado seu nome na história, daqueles que se insurgem contra toda forma de injustiça e que lutam ombro a ombro com o povo pela transformação social.

Há exatos 35 anos era assassinado – numa emboscada ardilosamente tramada pelo DOPS de São Paulo sob a chefia do delegado Sergio Paranhos Fleury – o líder comunista Carlos Marighella. Morto de forma covarde, o que valeu a condenação da União pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça, por 5 votos contra 2 em 1996. A comissão concluiu que ele foi assassinado por um tiro de curta distância, depois de imobilizado por três disparos fatais.
Marighella deixou gravado o seu nome na história do povo brasileiro, daqueles que se insurgem contra toda forma de injustiça e que lutam ombro a ombro com o povo pela transformação social.
Iniciou a sua militância ainda jovem no PCB, partido no qual se destacou como um dos seus principais dirigentes por muitos anos, deputado federal Constituinte eleito em 1945, companheiro de bancada, dentre outros, de Luiz Carlos Prestes, Gregório Bezerra, João Amazonas, Jorge Amado, Mauricio Grabois e Pedro Pomar. Fundador da ALN Aliança Libertadora Nacional em fins da década de 60. Poeta e escritor, autor de discursos enérgicos, voz firme na defesa da independência nacional, da campanha do "Petróleo é nosso" e contra os avanços do imperialismo no Brasil.
Carlos Marighella é um dos principais personagens do século XX. Sofreu na carne as vicissitudes da luta operária num país onde os governos de exceção viraram regra, nos poucos anos em que pode desfrutar das chamadas liberdades democráticas, soube ser uma liderança pública como poucos. Na Assembléia Constituinte de 46 teve papel destacado, autor de inúmeras emendas, proferiu em tomo de 200 discursos em plenário nos dois anos em que pode cumprir o seu mandato. Passou a maior parte da vida na clandestinidade, esteve preso por quatro vezes, o maior período, de seis anos, sob o Estado Novo, em Fernando de Noronha e ilha Grande, quando organizou a Universidade Popular no presídio e deu aulas de matemática e filosofia. Procurava manter firme a moral dos presos políticos e a sua dignidade para as lutas futuras.
Combatente de primeira linha, símbolo para a juventude brasileira, soube nos tempos mais difíceis manter a altivez e o espírito de luta quando a ditadura militar com seus gorilas fechava o cerco sobre a militância de esquerda, e se esperava uma ação enérgica do PCB. Ousou romper com o comodismo daqueles que depois de anos de adaptação e reboquismo à burguesia nacional estavam paralisados diante do golpe. Propôs uma ação direta contra a ditadura, um exemplo que pretendia irradiar pelo país e contagiar corações e mentes de operários, estudantes, camponeses, do povo contra a tirania, mesmo num momento em que a correlação de forças se mostrou desfavorável e significou um preço a pagar (a vida). Como assinalou Florestan Fernandes em artigo publicado no jomal Folha de S.Paulo por ocasião dos quinze anos da morte de Marighella: "O que qualifica e distingue as posições assumidas por Carlos Marighella é o propósito de romper com uma linha adaptativa, que retirava o Partido Comunista do pólo do proletariado da luta de classes, convertendo-o em "cauda" permanente e em esquerda da burguesia".
Nos tempos mais duros da ditadura militar sofreu uma perseguição implacável, seu nome foi execrado publicamente, jornais, revistas, emissoras de rádio e televIsão o colocavam como o inimigo público número um, os militares e a burguesia tratavam de inverter os fatos, de tratá-lo como terrorista, assim como todos aqueles que ousaram resistir à ditadura, escondendo o verdadeiro terrorismo, o terrorismo de Estado praticado pelo aparato policial-militar, contando com colaboradores privados, para derrotar os que lutavam Jorge Amado, na ocasião do sepultamento dos restos mortais de Marighella em Salvador, dez anos após a sua morte, destacou este fato em uma bela homenagem: "Escreveram a história pelo avesso para que ninguém soubesse que eras pão e não erva daninha, que eras vozeio de reivindicações e não pragas, que eras poeta do povo e não algoz".
O terrorismo de Estado praticado impunemente, a prisão, a tortura, o desaparecimento e a morte de lutadores sociais que como Marighella lutavam pela liberdade, merecem ser cada vez mais de conhecimento de todo o povo brasileiro, não podemos ignorar estes fatos da nossa história, todo o esforço que já foi feito para desvendar o triste período que passamos nas décadas de 60 e 70, merecem ser completados com a abertura dos arquivos do Estado sobre a repressão. É um dever do Estado e direito do povo brasileiro que venha a público as atrocidades cometidas contra os opositores políticos da ditadura.
Nesses tempos de neoliberalismo e pensamento único onde prevalece o senso comum e a despolitização, lembrar Carlos Marighella é não só reavivar a história, mas resgatar o compromisso com os de baixo, com uma profunda transformação social, numa realidade iníqua e de exclusão que se perpetua, compromisso com a participação ativa do povo como sujeito da história na luta por igualdade social, por democracia. Enfim, lutar e sonhar pelo comunismo como etapa superior da humanidade.
Como sintetizou Florestan Fernandes: "Um Homem não desaparece com a sua morte. Ao contrário, pode crescer depois dela, engrandecer-se com ela e revelar sua verdadeira estátua à distância. É o que sucede com Marighella. Ele morreu consagrado pela coragem indômita e pelo ardor revolucionário."


Ivan Valente é líder do PSOL e membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.


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