Sábado, 28 de Maio
Colunista
23/06/2013 - Copyleft

Classe média acordou para a melhoria dos serviços públicos



Vamos combinar: a providencial burrice e estupidez da policia conseguiu, como sempre consegue, colocar nas ruas uma multidão que as militâncias organizadas, por mais aguerridas que sejam, raramente conseguem. O que deveria ser mais uma entre muitas manifestações de um magote de mil ou 2 mil pessoas, por algumas ruas da enorme São Paulo, sem direito a notícia no "Jornal Nacional", tornou-se, em poucos dias, uma explosão de 1 milhão, espalhados em 80 cidades bra-sileiras. Talvez tenha sido mesmo este o objetivo do governador Geraldo Alckmin, ao soltar os seus cachorros, se fosse possível lhe atribuir tamanha inteligência estratégica e visão premonitória...

Mas como ensinavam os manuais dos antigos guerrilheiros, uma fagulha pode incendiar a floresta. Havia uma insatisfação latente no ar catalisada, pela boçal repressão, em gigantescas mani-festações. E essa insatisfação só esperava um motivo para explodir assim que se abriram, para serem vistos principalmente pela televisão, os maravilhosos estádios (ou "arenas") construídos, pelo governo, para a FIFA.

Não são tão difusas assim, como se pretende, as demandas. Cartazes e palavras de ordem pedem educação (pública), saúde (pública), transportes (públicos) no mesmo "padrão FIFA". Cartazes e palavras de ordem também manifestam repulsa à "política", aos "políticos", aos "partidos". Atos de violência atingiram os prédios das casas legislativas, até o Itamaraty. O alvo parecia ser o Estado. Aqui, é verdade, não raro, "política" e "políticos", até mesmo "Estado", subentende "es-querda" e "PT".

Um olhar mais atento deve, porém, buscar melhor precisar quem são os atores sociais dessas manifestações. "Povo" ou "sociedade civil" são expressões, estas sim, difusas ou polissêmicas. Em sua grande e mais consciente parcela, essa multidão é constituída por estudantes ou profissionais jovens, aqueles e estes basicamente de classe média. Aliás, quem já passou dos 60 anos, tem a impressão de que a cada 20 anos, a classe média vai às ruas através dos seus filhos de 20 anos... Os motivos imediatos são diferentes, conforme o momento, mas o renascer geracional pode querer expressar as insatisfações da classe média após seus ganhos e perdas a cada ciclo longo da nossa história. Não são os últimos 10 anos, mas talvez os últimos 20 (dos quais, apesar das aparências, os últimos 10 foram mais de continuidade do que de descontinuidade) que podem se estar encerrando.

Na medida em que a massa jovem crescia nas ruas, outro ator também se fez presente, identifi-cado, pelos jornalistas, como "radicais": o lumpemproletariado. Em muito menor número, mas muito maior agressividade, o lumpesinato aproveitou o momento para extravasar suas frustrações e raivas, contra tudo e contra todos, ignorando solenemente a disposição convenientemente pacifista da maioria ("MPL grita 'sem violência' e os que atiram coisas na polícia devolvem, 'sem burguesia'", registraram no Twitter). Isto talvez seja novo no Brasil. Os lúmpens não apareceram nas "Diretas", nem no "Fora Collor", aquele um movimento realmente do povo, no melhor sentido da expressão; este, uma grande mobilização da classe média, com apoio, talvez, popular... e da Rede Globo. O lumpesinato (milícias e facções por trás?) começou a dizer a que veio e, como sabemos desde o 18 Brumário, quando mobilizado politicamente serve de base social à barbárie e ao fascismo. Mas tem gente da esquerda que namora perigosamente com isso...

A esquerda orgânica, partidária, por quaisquer das suas grandes ou pequenas organizações, não chamou esse movimento. Já os seus segmentos que acreditam estar a internet substituindo a so-ciedade, como se alguma tecnologia pudesse ser sujeito da história, aderiram a ele entusiasmados, querendo ver aí mais uma evidência da força das "redes sociais", ignorando (talvez por serem jovens...) que, em 1968, 100 mil pessoas também saíram às ruas do Rio, outras 100 mil em São Paulo, milhares em outras cidades, numa época em que até mesmo o simples telefone, neste Bra-sil, era um luxo de muito poucos. Indo mais longe no tempo, na Revolução Francesa contava-se, no máximo, com uns pasquins mal impressos, e só para quem sabia ler...

Quando quis surfar na onda, a esquerda descobriu, um tanto assustada, que o movimento era também contra ela. Sim, a classe média "cansada", energizada a gás lacrimogêneo no lugar de Red Bull, saiu para as ruas...

No entanto, essa classe média que não usa transportes públicos, paga plano de saúde, coloca os filhos em colégios privados, está reivindicando justamente serviços públicos de qualidade. E, também, política de qualidade. Padrão FIFA.

Esta pode ser a boa novidade. A classe média parece estar cansada de pagar por serviços privados e (exceto se tudo isto não passar de grande hipocrisia), quer ver seus impostos traduzi-dos numa melhoria generalizada dos serviços públicos, para que venha a também acessá-los, redu-zindo os seus pesados gastos com escolas, médicos e automóveis. E identificou, muito bem iden-tificados, os responsáveis pelos péssimos serviços prestados pelo Estado à população: os políticos que aí estão.

"Crise de representatividade"? – como pretendem os analistas e formadores de opinião (de classe média), à esquerda, ou à direita ou a Facebook? Não. A classe média que está nas ruas não vota nos (vamos dar alguns nomes exemplares!) Renans Calheiros, Eduardos Cunhas, Garotinhos, Geddels Vieiras Limas, não vota em toda essa camarilha que hoje hegemoniza o Congresso Na-cional, as Assembléias Legislativas e, pior ainda, as Câmaras dos Vereadores, sem falar da grande maioria das prefeituras, muitos governos estaduais e até ministérios e empresas federais. No entanto, eles são eleitos. Ninguém os nomeou. Uma enorme parcela do povo brasileiro se vê muito bem representada neles. Parcela despolitizada, desinformada, deseducada, que lhes agradece os "centros sociais", as "igrejas", os empregos ainda que temporários no "tempo da po-lítica" (como dizem), quando não as camisas para o time de várzea, dentaduras ou par de óculos. Sem falar, claro, o Bolsa Família.

Essa malta (sem trocadilho!) política não representa a fatia melhor informada e mais esclarecida da população brasileira, mas lhe está impondo, além do sentimento de vergonha e impunidade, um crescente desconforto que se manifesta quando, por exemplo, um até então obscuro Marco Feliciano assume a presidência da CDH e, com milhões de pessoas nas ruas, não tem nenhum pejo em fazer aprovar um projeto de "cura gay"; ou um outro obscuro Lourival Mendes, eleito, no feudo dos Sarney, por uma legenda de aluguel, quer, através da PEC-37, acabar com o poder de uma das poucas instituições deste país que tem correspondido às expectativas dessa classe média – o Ministério Público.

Pois foi com essa gente que o PT, depois de eleito por uma parcela expressiva dessa classe média que hoje está na ruas, por acreditar naquela campanha "você é um pouco PT" (lembram?), pois foi com essa gente que o PT resolveu governar o país. É claro, sabemos, não fez nada diferente do que fez, antes dele, e faz, onde ainda pode, o PSDB – e fará Aécio Neves se, por tais desenganos, eleger-se no ano que vem. Mas o PT foi eleito para fazer diferente. Igualou-se. E ensinou à classe média que "político é tudo igual". Ou, como se dizia nos tempos do Império, "nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder"... Sabemos que é nesta hora que surgem os Collor de Melo, os salvadores da Pátria. Quem se candidata? Marina Silva? Eduardo Campos?

Perceba-se que as reivindicações, a rigor, não se dirigem para as instâncias federais (embora os jornalistas nunca sublinhem isto, ao contrário). Pela Constituição, a maior parte dos transportes públicos, o ensino fundamental e médio, quase todo o sistema de saúde, assim como também a segurança pública, são de competência das autoridades estaduais e municipais. Já deveria estar absolutamente claro que esse modelo federalista e localista não funcionou. Mas isto é assunto para outra oportunidade. O governo federal poderia simplesmente lembrá-lo à sociedade e des-colar-se do fracasso sucessivo, quadriênio após quadriênio, há 25 anos, das gestões estaduais e municipais nessas suas instâncias de competência. Fracasso que fica ainda mais escancaradamente evidente quando se abrem para as imagens HDTV, os bilionários elefantes brancos da FIFA.

Pois terá sido isto que a presidente Dilma Rousseff, ainda que um tanto sutil, parece ter dito à Nação, no seu pronunciamento da noite de sexta-feira última. Foi muito clara em seu recado ao Congresso sobre sua (do Congresso) responsabilidade na aprovação dos 100% dos royalties para a educação. Convocou governadores e prefeitos para construírem um pacto em favor de serviços públicos decentes. E pediu uma reforma política que fortaleça os partidos e a transparência na política. No cargo que ocupa e nas condições do país, seu discurso precisa ser oblíquo. Para as mentes pedestres (não são poucas), ele pode ser traduzido assim: "a classe média de nossas mais importantes cidades está dando a todos nós um basta ao paroquialismo, fisiologismo, picuinhas político-eleitorais e coisitas mais. E eu (Dilma) concordo. E vocês? Vão continuar em-barreirando medidas necessárias a todo o País, se não for nomeado o diretor disso ou liberada a verbinha daquilo?".

Dilma tem a grande oportunidade de se apoiar agora no que Lula não quis se apoiar em seu início de governo quando preferiu fazer negócios com os Robertos Jeffersons da vida: apoiar-se na energia das ruas – a energia das ruas ocupadas pelo que há de melhor na nossa sociedade – para avançar no que sempre foi bandeira da esquerda (melhoria dos serviços públicos) e recuperar a liderança e confiança que já teve e ainda tem nessa parcela da sociedade.






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