Domingo, 21 de Dezembro

02/11/2012 - Copyleft

“Os brasileiros não se sentem latino-americanos”


Marco Aurélio Weissheimer
Marco Aurélio Weissheimer

Porto Alegre - O desconhecimento que a maioria da população brasileira tem em relação à cultura latino-americana não chega a ser uma novidade. Mas ele fica mais gritante e absurdo quando referido por artistas e intelectuais de língua espanhola que tem grande conhecimento da cultura brasileira. Em 1986, o jovem escritor cubano Reinaldo Montero, vencedor do prêmio Casa de las Américas naquele ano com a novela Donjuanes, foi convidado para a Bienal do Livro em São Paulo. Quando chegou ao hotel, em São Paulo, viu em um mapa que estava muito perto da esquina da Ipiranga com a São João. “Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim...,” comenta.

Convidado para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, Montero concedeu entrevista à Carta Maior e falou sobre a influência da cultura brasileira na literatura, cinema e música cubana. Escritor, dramaturgo e roteirista de cinema, Reinaldo Montero foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras (As afinidades, 1999). Na entrevista, realizada no Memorial do Rio Grande do Sul, ele também fala sobre a relação entre inspiração e transpiração no ato de escrever, sobre o impacto da internet e das redes sociais na literatura e na relação dos autores com críticos e público, e sobre o atual momento da vida cultural cubana. Ao final, aponta uma relação de escritores e dramaturgos, cujo trabalho ajuda a refletir sobre o atual estágio da civilização. Montero não é muito otimista: “Vivemos um momento adolescente como espécie. E tenho dúvida se vamos amadurecer algum dia”.

Além do Casa de las Américas, em 1986, Montero ganhou prêmios em Cuba, Espanha e França, já teve três roteiros filmados, várias peças encenadas e é autor de novelas, poesias e ensaios.

Há uma grande ignorância brasileira em relação à cultura da América hispânica, o que se aplica também ao caso da cultura cubana...

Reinaldo Montero: Sabe o que acontece? Os brasileiros, a maioria deles ao menos, não se sentem latino-americanos. Isso é muito curioso porque a influência do Brasil na América Latina e, em especial, em Cuba, é extraordinária. O conhecimento que há do Brasil em Cuba é enorme: o tropicalismo, o Cinema Novo, o primeiro título da coleção Casa de las Americas foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Essa influência é mais antiga ainda e chega até a música que vocês chamam de erudita. As Bachianas de Villa Lobos, em especial uma interpretação memorável que se fez da Bachiana nº 5, influenciaram o nacionalismo musical cubano, a música “culta”, como se diz em espanhol, nos anos 30 e 40. Depois, com o tropicalismo e o Cinema Novo, nos anos 50 e 60, poderia se dizer que a música brasileira era tão cubana quanto a cubana.

Eu vim para o Brasil pela primeira vez, em 1986, convidado pela Câmara do Livro de São Paulo, para a Bienal do Livro. Eu lembro que cheguei à noite e me levaram para o hotel. Quando cheguei na recepção do hotel vi num mapa da cidade que estava perto da Ipiranga com a São João. Ipiranga com São João? Alguma coisa acontece no meu coração...Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim...

Pouquíssimos, certamente. E no seu trabalho como escritor, dramaturgo e ficcionista aparece essa influência também?

Nessa minha vinda ao Brasil em 1986 fiz minha primeira tentativa de ler português. Trazia comigo Grande Sertão Veredas e um parágrafo marcado para que meu amigo Humberto Werneck, jornalista da Isto É na época, me explicasse o significado. Neste parágrafo eu entendia todas as palavras isoladamente, mas não entendia nada. Perguntei a ele que respondeu: eu também não sei, quer que eu seja adivinho...Meu interesse pela literatura brasileira está baseado na Casa de las Americas que publicou no primeiro número de sua coleção latino-americana, nos anos 60, as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Eu li o livro nos anos 70 e depois li outras histórias de Machado que foram publicadas um pouco mais tarde.
Depois li São Bernardo, que gostei muito mais do que Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Ou seja, desde o meu período de formação eu lia naturalmente autores brasileiros e, é claro, muitas outras coisas. Eu lia com uma fúria adolescente que evoco com nostalgia, com saudade, como diriam vocês. Também li a poesia de Drummond de Andrade e de Vinicius de Moraes. Um pouco mais tarde, chegou Clarice Lispector, sobretudo A paixão segundo GH, e, mais recentemente, Raduan Nassar. E todas essas leituras foram facilitadas pelas edições cubanas. Cabe lembrar também que na Casa de las Americas há um prêmio de literatura brasileira.

Quando é que você começou a escrever?

Comecei a escrever muito cedo, desde os 12 anos. Lamentavelmente não guardei esses contos. Depois, durante muito tempo, escrevi diários, que eu mesmo me encarregava de queimar, porque não gostava do resultado. Não me parecia nada interessante. Mas eu sou um escritor tardio. Meu primeiro livro foi Donjuanes, que ganhou o prêmio Casa de las Américas, em 1986. Eu já escrevia antes disso, é claro. Era inclusive poeta. Já não o sou, pois para ter a minha idade e ser poeta seria preciso ser sábio, o que não é o caso. Não seria tolerável um poeta como eu. Então, coloco a baliza para demarcar quando comecei a escrever a sério lá pelos anos de 1984, 1985. Em 1986, ganhei o prêmio Casa de las Américas e, a partir daí, começou minha caminhada.

E o seu trabalho acabou se ampliando também para os campos do teatro e do cinema. Como foi isso?

Eu comecei a escrever roteiros de cinema muito depois. E fiz isso porque recebi convites de diretores de cinema para que escrevesse roteiros. Três deles foram filmados [El encanto del regresso, Bajo presión e El vals de La Habana Vieja]. Também tive uma educação teatral muito importante. Fui assessor de diretores de teatro muito importantes em Cuba, como Vicente Revuelta, Berta Martinez, Raquel Revuelta, Abelardo Estorino. Trabalhar com esses diretores em uma mesa de preparação de obras foi uma verdadeira universidade. Aí comecei a aprender os rudimentos da dramaturgia, da história do teatro. Comecei a me preocupar com coisas que, até então, não estava preocupado. Antes de publicar a minha primeira novela, eu já escrevia roteiros. Todos somos, de alguma maneira, filhos do cinema. Nossas memórias mais antigas têm a ver com o cinema. Nos lembramos de uma sala de cinema quase como nos lembramos de nossas mães. Fiz o curso de Gabriel García Marquez sobre a redação de roteiros, que, na época, era de seis semanas, e que foi uma parte muito importante de minha formação também. Foram oportunidades que a vida me presenteou e eu creio que soube aproveitá-las.

No debate do qual participou na Feira do Livro de Porto Alegre, você defendeu que a contribuição da inspiração no trabalho de um escritor é muito pequena e que escrever é algo sério que exige um trabalho árduo. A inspiração é uma ilusão no trabalho de um escritor?

A falta de inspiração é a desculpa dos poetas e dos escritores preguiçosos. Eu creio que alguém possa ter momentos inspirados, que eu prefiro chamar de momentos de lucidez, mas esses momentos chegam quando você está trabalhando. Eu sempre ando com uma caneta e papel. Olha, o papel está em branco. Hoje ainda não me ocorreu nada. Mas a qualquer momento pode ocorrer algo. Esse momento poderia ser chamado de inspiração, mas eu não gosto da palavra.

Parece mais um estado de atenção, na verdade...

Sim, algo te chama a atenção. Quando eu estava vindo para cá [a entrevista foi concedida no Memorial do Rio Grande do Sul, Praça da Alfândega, onde ocorre a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre], havia um homem na rua tocando uns vinte instrumentos - pratos, bumbo, um acordeão, flautas, muitas coisas. Esse homem era muito agressivo com o público. Constantemente se dirigia ao público com uma força muito especial, e com muito humor. Eu me detive a ver qual era sua arte, a arte de convencer as pessoas a lhe dar uma moeda. Isso me chamou a atenção, mas não tomei nenhuma nota, não para não me atrasar na entrevista contigo, mas porque não vi nada que já tivesse visto antes.

Quando você inicia uma novela ou um texto de ficção qualquer, parte de uma ideia ou plano previamente concebido ou esse plano vai sendo construído no caminho da escrita? Na produção de “Afinidades”, por exemplo, houve uma ideia geral da história previamente pensada e que foi sendo desenvolvida ou outro processo de criação?

Para ser sincero, não me lembro bem. Tenho a impressão que La visita de la Infanta foi uma novela muito estruturada, mas a estrutura tão rígida de As afinidades não foi previamente pensada. Eu tinha claro na cabeça uma história. Mas os acidentes dessa história foram acomodando a direção da mesma e aí aflorou a estrutura com muita necessidade. Esse caso do homem orquestra que mencionei, poderia resultar em um conto interessante. Muita gente lhe deu dinheiro, inclusive uma nota de dez reais. Ele recolheu esse dinheiro do chapéu com muita satisfação, com muita avidez. Aí poderia estar a semente do conto, nessa promessa cumprida. Mas ela deve ser compensada com algo ruim que vai acontecer com ele. A minha literatura não tem muitos finais felizes. Estou pensando que esse homem, que é evidentemente pobre, retorna ao seu quarto e quando entra na peça recai sobre seus ombros o cansaço de todo o dia, sua pobreza, o fato de não poder sair de onde está. Ele conta o dinheiro e vê que tem o suficiente até o próximo dia. Amanhã, tudo recomeça...Bem, por aí há um conto...

Eduardo Galeano diz que só se deveria escrever quando a mão coça...

Debussy disse que, quando sentia coceira nos dedos, sentava ao piano para compor. Pode ser. É que escrever dá muito trabalho. Uma novela é um dia sim e o outro também. Não dá pra esperar que a mão coce para escrever a novela, ou que chegue a inspiração. É preciso se sentar para trabalhar como se fosse um empregado. E eu gosto disso. Estou ganhando o pão, trabalhando.

Há alguns temas prioritários em tua obra?

Há somente dois temas e nada mais. Dois temas, não três: amor e morte. Não uma terceira coisa de que falar. É uma pobreza horrível. Se não se relaciona com o amor ou com a morte, falta algo. Por exemplo, esse artista ambulante do qual estamos falando está carente de amor quando chega em seu quarto. Quando requenta a sopa que fez no dia anterior, ele se pergunta: até quando aguentarei? Aí, de alguma maneira a morte está o visitando. A morte se aproxima de várias maneiras. O amor também, não só na figura da presença, mas também na da ausência. Assim, nesta história que estamos escrevendo aqui, tu e eu, estão presentes o amor e a morte. Tudo desemboca aí. Não te parece?

Há um vídeo no youtube, com um rápido comentário teu, feito após uma oficina em São Paulo. Perguntado se queria deixar uma mensagem aos alunos, você responde: jamais se rebaixe respondendo a um crítico. Você lembra disso?

[Risos]...Sim. Eu respeito o trabalho dos críticos. Alguém tem que fazer esse trabalho. Respeito todos os tipos de trabalho. Esse é um deles. Truffaut dizia que caso alguém perguntasse a um menino de sete anos o que ele gostaria de ser quando crescer, ele jamais responderia “ser crítico de cinema”...Quando a minha filha tinha cinco anos, perguntavam a ela frequentemente se ela ia ser escritora como o papai. Isso me incomodava. Deixem que ela seja uma criança, eu respondia. Um dia eu disse a ela: Inês, toda vez que te perguntarem isso, diga que quer ser crítica de cinema. E ela, aos cinco anos, quando perguntada sobre o que queria ser quando crescesse dizia como um papagaio: quero ser crítica de cinema!

Eu não tenho nenhuma aversão aos críticos. O que ocorre é que, com a internet e o surgimento de blogs, twitter e tudo isso, muitos escritores entram em polêmica, não somente com os críticos, mas também com leitores. Cada um que pense o quiser. Como eu vou convencer alguém disso ou daquilo. Em primeiro lugar, não se pode convencer quem já está convencido. Então, me parece absolutamente inútil entrar nesse tipo de polêmica, discutindo com um crítico ou um leitor.

Você acha que a crítica não ajuda em nada a literatura?

Não. Acho que ela ajuda muitíssimo, porque há excelentes críticos. Na América Latina, por exemplo, houve dois críticos importantes na primeira metade do século XX: Pedro Henriquez Ureña e Octavio Paz. Eles me ensinaram a ler. Em outras línguas, há autores que também me ensinaram a ler: as conferências de T.S.Eliot sobre a função da poesia e a função da crítica, por exemplo. Há um nível de reflexão aí que é imprescindível. Outro exemplo é o trabalho de Le Corbusier sobre o que ele chama de nova arquitetura. E, com exceção de Henriquez Ureña, estamos falando aqui de criadores de ficção ou artistas que fazem trabalho crítico. O próprio Debussy tem um texto maravilhoso sobre a música que se chama Senhor Colcheia, antidiletante. Ou a história da arte de Vasari, sobre a arte do renascimento, um trabalho esplêndido. Ou seja, a crítica tem essas enormes possibilidades. O problema são as críticas sem fundamento, os críticos incultos e ignorantes.

Você se referiu à internet. Com o surgimento dos blogs e ferramentas como twitter e facebook houve uma espécie de explosão autoral. Todo mundo, de certo modo, virou autor. Na sua opinião, já é possível perceber um impacto disso na literatura?

Creio que sim. Há uma espécie de hemorragia de textos curtos, que o twitter impulsiona mais ainda. Perdeu-se a riqueza das cartas. E agora, com os chats e skypes, o próprio correio eletrônico se foi. Eu mesmo tenho contato com minhas filhas todos os dias pelo Skype. Essa virtualidade estende-se mais às imagens do que aos textos. O que ocorre com os textos na internet é que os blogs estão cheios de gente que não sabe escrever. Quando digo não sabem escrever, quero dizer que não sabem colocar uma palavra ao lado da outra, que não sabem articular duas ideias. Há casos de escritores respeitáveis que tem blogs e que ficam na obrigação de postar de dois em dois dias, para não perder leitores. E acabam não dizendo nada interessante. No twitter, é mais pobre ainda. O que interessa ler um escritor dizendo que agora vai preparar uma picanha? Tem muita gente que acha simpático entrar na vida privada do escritor. Eu lamento que percam tempo com isso.

O desconhecimento que grassa no Brasil sobre a cultura cubana anda de mãos dadas com alguns estereótipos sobre a vida intelectual em Cuba. Um deles consiste em dizer que em Cuba há basicamente dois tipos de intelectuais: os dissidentes e os oficialistas. É isso mesmo? Como é que você define a vida intelectual em Cuba hoje?

Um estereótipo responde sempre a uma realidade. Quando se diz que o brasileiro é um povo alegre, pode ser que você seja um pouco triste, mas em geral os brasileiros são extrovertidos. É claro que nem todos o são, há os introvertidos, há suicidas, tudo o que quiser. Mas é difícil que eu consiga convencer alguém da profunda melancolia do povo brasileiro. Então, os estereótipos respondem a uma realidade. O que ocorre, e aí os estereótipos começam a não servir para nada, é que a realidade é mais rica, mais matizada. Quando chegamos à essência de um fenômeno, ele é sempre mais rico.

Portanto, a realidade é mais rica. Há um pouco de tudo. Quanto à intelectualidade cubana, é certo que há uma profunda divisão entre intelectuais oficialistas e intelectuais dissidentes. Como sempre ocorre, dos dois lados há gente boa e inteligente e gente que não serve para nada. Essa polarização é extrema, e neste sentido corresponde ao estereótipo, mas ela é muito mais rica que ele.

As mudanças econômicas que estão acontecendo em Cuba estão se refletindo também na vida cultural do país?

As mudanças tão anunciadas estão ocorrendo a conta-gotas, de forma muita lenta. São mudanças muito elementares. Não há mudanças profundas na economia ou na estrutura do Estado. Realmente não sei se o governo tem uma ideia clara de como fazer as coisas, ou se está tateando em busca de um caminho. Na arte, as mudanças já vieram muito antes. Desde antes da queda do muro de Berlim, a arte começou a ser cada vez mais crítica com a realidade. Eu mesmo não sou um escritor complacente com a realidade. Aliás, sou muito crítico com a realidade.

Já teve algum problema por causa disso?

Não. O que escrevo, é publicado. Eu não me meto na esfera política. É claro que, como dizia Aristóteles, todos somos animais políticos. Como todo homem, tenho preocupações políticas. Aqui entre nós, creio que a política hoje é a profunda desgraça da humanidade e explica o nosso momento adolescente como espécie. O homem, como espécie, é um adolescente. Votar em um político, em Pelotas ou nos Estados Unidos, por conta da simpatia ou da aparência do mesmo, é um reflexo da nossa profunda adolescência. Não amadurecemos, de fato, como espécie, e tenho dúvida se vamos amadurecer algum dia.

O que você está lendo hoje? Entre os autores contemporâneos, quais, na sua opinião, estão refletindo sobre esse estágio de adolescência da humanidade, sobre os problemas atuais da civilização humana?

O dramaturgo alemão Roland Schimmelpfennig, que tem cerca de 50 anos. É um dramaturgo diferente. Cada obra dele ilumina um espaço da realidade. É um escritor extraordinário. A dramaturga Dea Loher, também alemã, é de primeira ordem. O dramaturgo francês Valère Novarina. Sarah Kane, evidentemente. Toda a realidade passa por Sarah Kane. Em língua portuguesa, destaco esse livro extraordinário que é Esplendor de Portugal, de Antonio Lobo Antunes, uma obra de precisão e sutileza. Eu pensei que ele ganharia o Nobel e não Saramago, se fosse o caso de alguém de Portugal levar o prêmio. Le Clézio é pouco reconhecido, no entanto, suas novelas A Tormenta e O Dilúvio são obras extraordinárias.

Créditos da foto: Marco Aurélio Weissheimer




metis - 07/11/2012
O cubano falou "os brasileiros nao se sentem latinoamericanos" e eu achou que ele esta certo, o Brasil ficou com a ideia ( e quanto gigante pelo tamanho e populaçao!) dp Brasil potencia e mais ainda que ele foi "imperio". O Brasil tem menos mentalidade de Republica que os outros paises irmaos, aqui nao teve guerra de independencia e a escravidao durou bem mais. O Brasil se expande com os miles de brasileiros sem terra que "colonisam" as beiras (e mas que beiras) dos paises irmaos fronterizos. O Brasil tem que compreender que sozinho sera "potencia vassala" e subjugado. Olhar aos paises vizinhos com olhos de superioridade, como se a pobreza la fora e insoportavel (sem olhar dentro de casa), se achar mais "branquinho" que os outros sao mas indigenas...va terminar por criar odio. Oa empresas trasnacionais "brasileira" como a Vale ja esta criando preconceitos. Os paises vizinhos da PatriaGrande nao conhecem a cultura brasileira certo, tanto como nos, mais com "abertura mental" e programas reciprocos tudo pode se remediar para a necesaria unidade latinoamericana e caribenha.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 05/11/2012
Tigu, penso que quando o escritor citou a possibilidade que teve de comparecer a uma esquina de que tinha sido informado através de uma manifestação da cultura do outro (no caso, uma música), ele revelou o que pretendia estar dizendo com conhecimento cultural. Ter acesso aos objetos de manifestação cultural de outras regiões culturalmente distintas ( às vezes fico pensando como seriam os mapas do mundo baseados em fronteiras culturais, mapas esses que permitiriam uma ideia da distribuição geográfica dessas incontáveis diferenças, produzindo em Minas,por exemplo, muitas "Minas" e na América Hispânica, muitas outras) significa acessar outros elementos da vida social dessas regiões, inclusive, os elementos geográficos. Literalmente, o escritor já sabia da existência de uma esquina em São Paulo, porque ela fora citada por uma música brasileira que ele conhecia e que ,hoje,por exemplo é do desconhecimento até de muitos brasileiros mais jovens, que, talvez,também por isso, desconheçam a existência daquela esquina. Quando citei o gosto pela leitura que minha mãe possuía ( e fiz essa citação tendo em mente uma homenagem a essa pessoa que me formou o caráter humanista e que hoje não é mais capaz de reconhecer o seu primeiro filho por conta de uma avançada demência que lhe esculpe o mal de Parkinson) fiz referência ao CONHECIMENTO que ela , portadora de um rudimentar diploma de ensino fundamental, possuía de uma lei científica obtido através de suas leituras. Se perguntássemos a minha mãe, que jamais foi ao Rio Grande do Sul, coisas sobre a cultura gaúcha, certamente ela teria muitas respostas corretas, posto que, entre muitos outros autores gaúchos (bastante frequente em minha casa dadas as origens de meu pai) , minha mãe leu toda a obra de Érico Veríssimo. Além disso, conhecia a maneira de se fazer um churrasco no Sul, o sabor do chimarrão, vestimentas gaúchas ,etc. Em resumo "ir a uma esquina citada numa música" não é necessariamente "conhecer mais", mas ter ido a essa esquina informado pela música é algo extremamente emblemático e ilustrativo da importância desse intercâmbio cultural interditado pelos meios de dominação políticos, econômicos e ideológicos locais, interessados em perenizar o isolamento cultural, de impedir que se faça entre nossos povos o reconhecimento de suas irmandades culturais, de suas proximidades como nações. O consumo de objetos culturais do outro (para me expressar nessa linguagem mercantil que desprezo) promove a possibilidade de reconhecimento do outro , de aproximação desse outro. A dificuldade em se compreender e ler Guimarães Rosa que o escritor relata, ela mesma se manifestou não como uma dificuldade de um cubano em ler uma obra literária brasileira, mas como um sentimento de embaraço que somente indivíduos que conhecem a língua portuguesa tanto como brasileiros ( elemento cultural fundamental sine quo non) deveriam captar, posto que esse embaraço,essa dificuldade era algo propositadamente elaborado por Guimarães Rosa para desafiar leitores brasileiros a conhecer falares brasileiros ( certamente Guimarães Rosa não tinha em mente leitores cubanos ou alemães quando escreveu suas obras).


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 05/11/2012
Flávio, não tenho dados objetivos para concordar de forma fundamentada com você . Penso que uma dissertação mais detalhada sobre a historicidade desses interesses mútuos viria a calhar. Considerando a História da América Latina como um todo, certamente reconheceremos a insurgência quase impositiva, pela necessidade até de se acudir aos interesses econômicos,políticos e administrativos, das elites coloniais brasileiras, de um maior interesse da parte portuguesa pela espanhola da América com o advento da União Ibérica; e esse maior interesse deveria ( o que já pode ter sido objeto de pesquisa histórica) se projetar no processo de constituição da própria identidade cultural do lado português. Na fronteira sul do Brasil, de meus antepassados gaúchos, me parece que a influência dos elementos culturais recíprocos é maior do lado brasileiro do que dos demais lados ( o que coloca também a questão de se saber o quanto a América Espanhola conhece sobre si mesma,cabendo a pergunta: será que os argentinos conhecem mais a Venezuela do que os brasileiros? Outras perguntas idênticas poderiam ser formuladas e para serem respondidas demandariam pesquisa de campo). De qualquer forma a sua resposta prende-se mais aos interesses dos intelectuais e , talvez, mais precisamente dos intelectuais acadêmicos. Eu, tomei a afirmação do escritor cubano considerado os interesses de todas as nossas sociedades, de nossos estratos mais populares. Nesse último sentido, me parece ser absolutamente absurdo a falta de conhecimento ainda vigente em duas metades tão irmãs como são as espanholas e as portuguesas da América, sendo incipiente a vantagem que uma possa ter em relação a outra em termos de conhecimento do outro lado. E mais: sem que se invista massivamente em políticas públicas destinadas a eliminar essa dupla alienação em médio prazo , qualquer esforço de integração da América Latina, de consolidação da Unasul,por exemplo, estará severamente comprometido. Daí as singelas e inocentes propostas para sanar esse problema crucial colocado à nossa integração que tentei formular em comentário anterior.


Mardones Ferreira - 05/11/2012
Eu tenho que concordar que o desinteresse do brasileiro pela América Latina é um fato. E que isso é resultado do que caminho que trilhamos, como resultado de ''escolhas'' políticas, de certas permissões. Somos - em maioria - fruto da bendita mistura/encontro de raças/etnias, mas temos cuidado apenas de seguir o modelo de uma delas: a branca.


Lúcia Ribeiro - 04/11/2012
Essa entrevista me deixou envergonhada. Realmente, em se tratando de ficção, não conheço quase nada dos escritores latinos, exceto Gabriel Garcia Marques. Mas digo que sou apaixonada pela AL, e leio muito sobre política. Acho impossivel nao sentir-me irmanada depois de ter lido " As Veias Abertas...", de Galeano e uma infinidade de livros sobre a Revolução Cubana. As últimas décadas tenho voltado meus interesses também para a Venezuela, Equador, Bolívia, Paraguai, Uruguai. Uma observação: quanto aos cubanos conhecerem mais do Brasil do que nós de vocês tenho certeza que os cubanos lêem muito mais que os brasileiros e os seus interesses culturais são de qualidade bem superior à nossa. Outra observação: Ler Guimarães Rosa é difícil mesmo. Há um outro que não passei dos primeiros capítulos, mas é um desafio a vencer, trata- se de "Os Sertões" de Euclides da Cunha.


Tigu Guimaraes - 04/11/2012
Ir a uma esquina citada numa música nao creio ser "conhecer" mais. Fui a La Bodeguita, plaza de la Revolución, mas nao posso afirmar que conheco Cuba. Mas bem , vivo ha dezesete anos na República Dominicana, e tenho que gritar para que citen a brasil como sendo de Latino America...acho mas bem o contrario. Mas que vivemos de costa uns para os ourtos isso sim.


Flavio Wolf de Aguiar - 04/11/2012
É triste ver esse desconhecimento mútuo ainda operando de um lado e doutro de Tordesilhas. Historicamente, o interesse dos intelectuais brasileiros pelo lado hispano antecedeu muito e foi muito mais massivo - até hoje - do que o contrário. Hoje o interesse hispano-americano pelo Brasil é impulsionado pelo sucesso das políticas sociais brasileiras e pela TV. Essa entrevista não contribui em nada para a aproximação dos dois lados, só confirma a ignorância mútua. Que do lado de lá é maior, como se vê. Flávio.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 03/11/2012
Como disse, sou de pouco ler obras literárias, em comparação com a voracidade com que o fazem os meus familiares, que tinha em minha mãe, com o seu precário ensino fundamental apenas, a mais ilustrativa praticante desses aclamados bons hábitos.Só para se ter uma ideia dos resultados surpreendentes desses hábitos que passaram a ser cultivados com ardor pela minha mãe após,principalmente ,os seus 30 anos,relato que, certa vez ,me vi contingenciado a explicar à minha mãe porque as minha chances de ter um filho com olhos azuis com a minha ex-companheira era de apenas 1/4, pois que ambos éramos filhos de um pai de olhos castanhos e outro de olhos azuis. Em meio aquilo que se esforçava por ser uma explanação didática para uma senhora leiga, fui interrompido pela minha mãe que revelou completo domínio da lei ( primeira lei de Mendel) que eu dispunha a lhe fazer compreender: ela simplesmente a tinha aprendido de uma de suas leituras. Pois é, literatura também dialoga com a ciência. Mas ,apesar de ter adiado muitas leituras de outras obras de muitos bons autores de que li um livro ou dois, e ,outros, recomendados , de que não li nenhum ( embora muitas de suas obras talvez estejam me assistindo agora a digitar essas palavras, ou ainda sufoquem por terem que suportar o peso de muitas outras que lhes sobrepus), coincidentemente li mais de Saramago do que de Machado de Assis, sem com isso estar recomendando o primeiro em detrimento do segundo ( Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra-prima, assim como Dom Casmurro). Por outro lado, por puro acaso e por estar à disposição de minhas mãos quando não podia nada mais fazer do que ler um livro, li também "O Esplendor de Portugal", de Antonio Lobo Antunes. Um livro de fato excelente e recomendável. Porém, me parece que a sua indicação como sendo mais adequado ao Oscar do que Saramago provém mais uma vez de uma certa mágoa face aos comunistas ortodoxos ,como Saramago, em favor de alguém ,entretanto, que não se pode chamar de reacionário nem de direita, como Lobo Antunes, mas que podemos considerar um intelectual não orgânico, ou não ortodoxo . Talvez , Reinaldo Monteiro acredite realmente que Lobo Antunes e não Saramago merecesse o tal do Oscar e eu esteja cá fazendo uma ilação "barbosiana" ou "stfana" ( que horrível!) sobre suas preferências ,mas não pôde deixar de considerar essa sua opinião ao lado da outra sobre a política,que o revelou em completo desacordo com a concepção da política que manifestaria um marxista, sem necessidade de ser também leninista como eu.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 03/11/2012
COMENTÁRIO 1/PARTE I) Desconheço a obra do escritor cubano. Aliás, li muito pouco textos literários para os padrões de leitura de minha família ( assim, em vez de estar lendo um romance que comprei a uma semana em um sebo e que deixei empilhado sobre outros tantos comprados igualmente em sebos e igualmente não lidos, e que convertem o meu ambiente sem estantes em uma bagunça de livros amontoados) estou mais uma vez navegando na Internet ( no passado sem a blogosfera, estaria lendo jornais e revistas ,ou, então, os livros seriam de textos científicos de qualquer natureza). Isso , associado ao fato de que não encontrei lugar para me fazer organizado politicamente, como recomenda a minha consciência leninista, tem me tentado a pensar que talvez esteja na hora de começar a ler esse mundo de livros sobrepostos e em desordem e assumir a postura pequeno-burguesa do intelectual cubano, afirmando que "a política hoje é a profunda desgraça da humanidade e explica o nosso momento adolescente como espécie. O homem, como espécie, é um adolescente".Pois é,como se lê, uma ideia típica a alguns intelectuais não orgânicos brasileiros que se consideram de esquerda ,ou , orgânicos que se assumiram como sendo de direita ou socialdemocratas. E é isso que me chamou a atenção: a impossibilidade de se impedir que o contato com o mundo Ocidental produza em muitos intelectuais cubanos um sentimento de inveja em relação aos seus iguais em outros países. O mesmo se pode afirmar em relação a alguns atletas que, fora de Cuba, ganhariam muito dinheiro.Não os culpo por isso. Trata-se de um problema insolúvel para "o socialismo em um só pais" que converte os intelectuais,ou melhor, a maior parte deles, em porta de entrada para que se contrabandeie ideias destinadas a solapar ideologicamente as conquistas de uma revolução como a que se realizou em Cuba. Algumas dessas ideias e desejos de consumo , do ponto de vista filosófico,não se pode condenar , visto que se relacionam a uma sociedade ideal, que devemos lutar por erguer em todo o mundo (quem é que não gostaria de desfrutar,por exemplo, de um direito de ir e vir pleno, em Cuba,tal como um intelectual cubano ao visitar o Brasil acredita que seus iguais, que aqui integram a classe média, desfrutam, embora, desconversem quando lhes demonstramos que a maioria absoluta dos brasileiros e dos demais latino-americanos não podem desfrutar desse consagrado direito fundamental? Por outro lado,quantas pessoas da classe média brasileira se consideraria felizes caso vivesse nas condições em que vivem os seus equivalentes cubanos, que não se classificam como classe média , mas que exercem funções típicas à mesma ? Sem carro zero Km, sem apartamento em um bairro distante da periferia, sem todos esses bens de consumos duráveis dentro do apartamento e os não duráveis dentro da geladeira , que um intelectual cubano pode observar e invejar no apartamento de seu anfitrião progressista brasileiro , como, então, a nossa classe média, a classe média, enfim, de todos os países ocidentais, poderia ser feliz?


Alberto Navarro - 03/11/2012
Excelente entrevista, crítica, lúcida, sincera e atual. Efetivamente nós, brasileiros, não nos consideramos latino-americanos (vários se consideram apenas "americans"), o que é lastimável, juntamente com nossa crassa ignorância acerca da riquíssima cultura de nossos vizinhos. Concordo plenamente com a observação, muito pertinente, de que não somos um povo alegre, mas sim um povo profundamente melancólico, apático, decorrência, talvez, de carregarmos, culturalmente, nossa herança lusitana, o nosso "fado" cotidiano, o nosso "sebastianismo" atávico, talvez!


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 03/11/2012
A segunda parte de meu comentário refere-se ao trecho dessa entrevista que foi sublinhado pelo próprio entrevistador:o desconhecimento do brasileiro sobre a cultura latino-americana e ao fato, pior ainda, deste não se assumir como latino-americano que é. Esse é , sem dúvida , um dos temas que mais me preocupam e que parecem não ter entrado na agenda do esforço de integração latino-americana que se desenvolve atualmente. A mim me parece que essa agenda integracionista se desenvolve segundo uma lógica etapista e economicista. Desse modo, a primeira etapa, seria a comercial ( ou seja, nem mesmo econômica em sentido estrito ela o é, posto que se centra mais na livre circulação de mercadorias, sem se debruçar sobre a necessidade de passos no sentido de uma integração econômica mais consistente, como investimentos conjuntos e massivos em infra-estrutura, sem se preocupar com a origem de tais capitais,mas com as vantagens que tais investimentos proporcionariam para a consolidação da integração em seu conjunto.Para tanto, o conceito de nação brasileira, venezuelana, argentina, etc. teria que ser plenamente renunciado em favor de um novo conceito de nação latino-americana, o que faria com que passássemos a olhar para a Bolívia como um carioca olha para Pernambuco e um pernambucano olha para o Rio de Janeiro). Depois , segundo a lógica desse processo etapista, viria um paulatino e lento processo de integração política. A última etapa seria a integração cultural ( se é que essa etapa foi realmente considerada algum dia). Para mim, não deveria haver nenhuma etapa, devendo todas as três citadas ( pode haver mais de três , como ,por exemplo , uma promissora integração no sentido de se produzir conhecimento científico e tecnológico) serem encaminhadas em conjunto. Nesse sentido, os intercâmbios culturais deveriam ser incentivados exponencialmente, visando tornar conhecíveis em cada um de nossos países os elementos culturais dos demais. Restaurantes populares que servissem aos sábados pratos típicos de regiões brasileiras não conhecidos pelos próprios brasileiros de outras regiões, e , aos domingos, pratos típicos a outras regiões da América do Sul ( focando no caso na integração não de toda a América Latina ,num primeiro momento, mas a que se realiza no âmbito da Unasul). Rádios e TVs vinculadas a esse processo de integração, que veiculasse a discussão política da necessidade e do caráter libertário dessa integração, e que veiculasse a produção cultural de nossas sociedades entre si. Programas como os que existem conveniados entre o Brasil e os EUA, mas que passariam agora a serem praticados entre o Brasil e demais países da América Latina, em que houvesse a "troca de famílias" por um ano entre jovens brasileiros e de outros países da AL.Desconheço melhor forma de se promover a integração do que realizá-la massivamente no âmbito da juventude, colocando-a em contato direto com outros países da região. A maior consequência de uma política como essa , caso tivesse um caráter massivo, seria a rápida conversão da América do Sul, em um primeiro momento, e da América do Sul e Caribe , em um segundo momento, em um continente bilíngue, falante simultâneo de espanhol e português, resolvendo, desse modo, um dos principais fatores dificultadores para que o brasileiro se reconheça como um latino-americano. Entretanto, vale assinalar que essa falta de reconhecimento do brasileiro como ser latino-americano que, no entanto,ele é, produziu-se conscientemente pelas políticas de nossas elites, que sempre tiveram clareza da necessidade que tal isolamento cultural representava para seus interesses, ao mesmo tempo em que promoveram a simpatia nacional pela cultura do imperialismo estadunidense.


Flavio Wolf de Aguiar - 03/11/2012
Tenho uma sugestão: dar de presente para ele um exemplar da Latinoamericana - Enciclopédia Contemporânea sobre a América Latina e o Caribe, publicada pela Boitempo Editorial, prêmio Jabuti de Ensaios e de Melhor Livro do Ano em 2007, da Câmara Brasileira do Livro. Não há nada parecido no mundo hispano-americano. Aliás, há. É a tradução da mesma para o espanhol, publicada na Espanha. Uma leitura muito ilustrativa e preenchedora de lacunas do conhecimento.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 03/11/2012
COMENTÁRIO 1/PARTE II Portanto,é natural que o intelectual cubano emita uma opinião tão pessimista sobre a política. A política, infelizmente, o oprime e oprimirá sempre a um portador de uma alma pequeno-burguesa. Oprime aos justos, porque reconhecem que devem abrir mão de seus desejos de possuir uma vida de classe média fora de Cuba em nome da maioria de seu povo,e oprime aos mais egoístas, porque reconhecem que o bem-estar da maioria do povo, que não exercendo funções típicas à classe média a que ele pertenceria fora de Cuba, e que,por isso mesmo, fariam parte da imensa população de pobres e miseráveis que vivem fora de Cuba, não lhe admitiria que defendesse abertamente direitos não universais, que somente os que poderiam pertencer à classe média fora de Cuba possuiriam. Frei Beto escreveu com muita propriedade, como religioso que é, que o socialismo é o inferno para a burguesia, o purgatório para a classe média e o paraíso para a maioria do povo.Assim, como não posso criticar a obra do escritor, por desconhecê-la, resolvi apanhar no ar a mensagem POLÍTICA e IDEOLÓGICA subliminar que verteu da entrevista. Mas ainda tenho algo a dizer sobre a entrevista e que constituiu , no fundo, um reconhecimento às virtudes de sua sociedade.

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